sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Sem título
Perseguem-me, um par, uma valsa, uma lembrança, seguindo-me no escuro sombrio da solidão inexata. E ficam ali, a espreitar, murmurando coisas que não ouso entender, não quero entender, devoram-me em silêncio, deleitando-se com cada pulsar deste meu coração traidor - que ousa soar como taquicardíaco. E não adianta, nada adianta, fica somente a espreitar, não faz nada, não diz nada, e o nada me corrói mais que se houvesse ácido nas suas mãos, despeja em meu âmago retirando cada pedaço do calor esperançoso de meu corpo. Resta só o ranço, a gordura, o óleo, as gotas escorrendo pelos poros e caindo ao chão. E ele fica, ali, espreitando como milhões, gritos roucos, pesadelos. Então eu acordo e os encontro em meio a escuridão, o par, a valsa, a lembrança. Baixo o porta-retratos e viro para o outro lado, esperança de não ter sonhos a noite.
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