sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Sem título

Perseguem-me, um par, uma valsa, uma lembrança, seguindo-me no escuro sombrio da solidão inexata. E ficam ali, a espreitar, murmurando coisas que não ouso entender, não quero entender, devoram-me em silêncio, deleitando-se com cada pulsar deste meu coração traidor - que ousa soar como taquicardíaco. E não adianta, nada adianta, fica somente a espreitar, não faz nada, não diz nada, e o nada me corrói mais que se houvesse ácido nas suas mãos, despeja em meu âmago retirando cada pedaço do calor esperançoso de meu corpo. Resta só o ranço, a gordura, o óleo, as gotas escorrendo pelos poros e caindo ao chão. E ele fica, ali, espreitando como milhões, gritos roucos, pesadelos. Então eu acordo e os encontro em meio a escuridão, o par, a valsa, a lembrança. Baixo o porta-retratos e viro para o outro lado, esperança de não ter sonhos a noite.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Lágrima

E era uma gota. Um solitária e solidária gota, feita daquilo que não se compreenderia e que não se poderia compreender. Era dor, paixão, ardor. Uma forma que escorria vagarosamente. Uma gota amarga, uma gota doce. Fruto de tudo e de nada ao mesmo tempo. Transparente, translúcida, rubra como o sangue e tão ardente quanto o calor de uma batalha.
Era uma gota. Só uma gota. Dessas que escorrem pela face e se prendem ao queixo em um sorriso melancólico, uma verdade indizível escrita somente em água e sal. Sim, era amarga, mas antes fosse amarga que enjoativamente doce, pois era no amargor que estava sua beleza adocicada.
E era uma gota, uma que secava na pele parecendo querer não abandonar o corpo do qual nascera - como quem pede desesperadamente para não se deixar levar, como quem implora por mais alguns segundos.
Era  somente uma gota, de suor, de sangue, de lágrima, daquilo que não se compreenderia, daquilo que não há de se compreender.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Intituladas

Sim, estas são aquelas palavras soltas, grafadas com a letra trêmula e olhar turvo, escritas por uma mão calejada e por uma pena torta. São aquelas palavras que se escrevem sozinhas, em contorno e grafia indistintos, em um momento de fraqueza no qual não há nada no âmago senão um aperto familiar e corrosivo.

São palavras grafadas pelo inconsciente, por aquela vontade intrísseca de despejar em linhas algo que já não se expressa de nenhuma outra forma. São letras ilegíveis e profundas - talvez somente pela força da mão bêbada que a escreve - de significado irrisório, de sentido difuso...

São aquelas cartas loucas escritas em momentos derradeiros, numa vã esperança póstuma de que haverá sim mente tão aguçada que será capaz de compreender a sutileza de um sacrifício próprio - se é que este existe.

São aqueles poemas presos as gavetas numa vontade mendigada de olhos bondosos para lê-los e mãos gentis para afagá-los, além é claro de um coração disposto a aceitá-los e assim fazê-los verdadeira arte e não somente papel reciclado.

São aqueles livros não-publicados, ou até mesmo os publicados, mortos nas estantes empoeiradas esperando, quem sabe, aquele que chegará a achar em suas loucuras mundanas alguma graça.

Estas são palavras perdidas. Mortas em um momento de aflição. Livres somente por sê-lo. Loucas, afinal não há sanidade em um aglomerado caótico. Divinas para aquele disposto e paciente ancião a tentar entendê-las. Adormecidas pelos leigos. Porém Vivas a medida que se propagam como somente palavras ditas, escritas, contadas, em letra trêmula no coro dos bêbados e dos meliantes. Entendidas somente quando compartilhadas com os loucos, pois somente eles resguardam o discernimento para decifrá-las.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Reticências


Queria, em minha suprema ingenuidade, que fosse de tal modo diferente, de tal forma suave e pueril que tamanho resplandecer não se apagasse em meio aquela branca e doentia cúpula... Queria que aquele lamacento cinza-amarronzado perdurasse na limpidez astuta de um vale enrugado...

Não, jamais quereria este maldito sal bruto a secar-me a face, nem tampouco desejava ver o brilhante se tornar opaco com as camadas de poeira depositadas sobre a tez enrugada... Queria que o sussurro dos eucaliptos não ficasse restrito ao papel amarelado e ao negro da tinta (a qual já me lembra da negritude do que há de vir, os dias e sua marcha fúnebre - literalmente) a canção é, e sempre será, mais bela quando entoada pela antiga voz das florestas, aquelas mesmas com as ninfas e as sereias e os espíritos. Aquelas florestas que me narrava e eu, como pura e ingênua criança, tão arduamente desejava encontrar... Sim, as tuas florestas.

Queria que o abismo fosse somente ilusão de ótica, destas incompreensíveis e indecifráveis, porém, isto talvez já o seja... Queria que o portal do tempo, aquele que transportava os séculos nas tuas estórias, se materializasse ao som daquela canção profunda e silenciosa que somente tu sabias entoar, e que este portal pudesse então apagar os erros - genéticos e humanos... Queria que a corda de teu violão não se rompesse e que ele não fosse somente mais outra peça guardada no armário com uma sutil e longínqua e doce lembrança. Queria que ele não ficasse esquecido, e que tomasse vida ao som daquela voz - a tua voz - que preenchia cada milímetro da porta de entrada até o fundo do quintal...

Queria... Queria... Queria que esses meus quereres não fossem somente pequenos e enfadonhos diante da necessidade estática que tens. É tão ínfimo. Tão inocente e tolo diante desta já esfarelada esperança que alcança somente este âmbito do desejo e se perde nos fios ralos de teu cabelo esbranquiçado... Sobram-me somente os eucaliptos, silenciosos e negros... Negros como os dias que hão de vir. Negros como essa sensação amarga e o nó que prende-se a garganta no tênue momento que largo a pena e me contento a ter somente uma certeza... Esta única.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Rubrica

Meu peito já não dói, sangra
um líquido amarelo e doente
fruto do plasma d'alma demente
e das cinzas das torpes lembranças.

E, enquanto cinzeiro, essa ferida chora,
queimando por dentro em águas
o pouco das memórias sem mágoas
o muito dos devaneios de auroras.

Então fico a vê-lo putrefar
cansado de sofrer, morto por sangrar
o sangue que de amarelo vira tinta
petra, forte, viscosa...
Na qual a pena molho
da qual a negritude me apavora.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Mono

E os minutos não passam
E as horas se estendem
E os dias se arrastam, em um tiquetaquear infindo
E, inquietantes, as noites perecem
E a espera continua
Lenta... Passiva... Eterna...
Sem jamais findar
Sem jamais fluir

sábado, 7 de janeiro de 2012

Real ilusão

Sim, este momento é surrupiado, roubado de uma das muitas vidas que tive, tirado da que eu desejaria ter, era aquela calma complacente, que preenchia cada ponto vazio do meu íntimo como uma luz em meio a escuridão, queria que como a luz trouxesse semelhante paz e quando eu menos pensava lá estava ela. Pura. Amável. Enxugando meu rosto como o anjo da guarda, me prendendo em seus braços para que eu nada fizesse, nem nada temesse, era tão bom... Eu a queria o tempo todo, mas ela me prometeu algo melhor, me ajudou com vestes - tão lindas e puras - e disse que não voltaria, mas que alguém viria ao meu encontro. Era Afrodite.

O tempo passava, mesmo que parecesse parado com o céu claro e com a cheiro da chuva por vir, parecia que estava no paraíso e isso eu já achava mesmo sem tê-lo visto... A grama crescida, aquele ar bucólico, o vento fresco brincando de acariciar meu rosto, tão real, tão celeste. Quando ele chegou então, me dei por morta, não poderia ter visto ser mais fantástico em vida, seu jeito de me reter nos braços, a maneira com a qual falava, era a perfeição - ainda que possuísse seus defeitos - soaria tolo dizer que foi a primeira vista, um presente de Vênus, mas soaria ainda mais ridículo dizer que não foi nada e que nada aconteceu. Quando me dei por mim só existiamos nós, o resto do mundo era somente resto, ali estava o que de fato importava...

Tanto resplandecia que fiquei cega, tanto era fogo que fui queimada, tanto era denso de seus rumores e significados que me perdi, tanto era irreal que, pouco a pouco, do sonho fui despertando, quando me dei por mim estava só, a revirar lençóis, procurando a imagem do que jamais foi meu...