Da sofreguidão que o silêncio nos prega,
Desejo a pouca luz e abrigo cálido.
Da jornada que o tempo nos impõe,
Desejo a incerteza de todo amanhã.
Da escuridão pela noite pintada,
Desejo somente uma boa noite de sono.
Das luzes que o alvorecer nos emite,
Desejo não ver as manhãs de sol.
Da dor que o coração sente,
Desejo acreditar que é passageiro.
Das águas que lavam a face,
Desejo o não saber de onde escorrem.
Do aperto que nos é transmitido,
Desejo a pureza de um abraço.
Dos olhos inseguros de outrem,
Desejo as boas venturas e os bons olhares.
Das viradas das páginas amareladas,
Desejo uma esperança de melhora.
Das esperanças que as melhoras trazem,
Desejo a vida, pura, simples e atenta.
Da vida pregada em árduas penas,
Desejo somente a certeza de tê-la vivido.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Pena
Ela discorre com sua forma lânguida, apressada a soltar o que não se deve nem sequer pensar, soa sórdida, ainda que angelical, soa pura ainda que visceral, surrupia os sentidos como um narcótico, entorpece-os como um veneno a sabotar todas as sinapses nervosas. É calmante, porém sabe ser cruel, expositiva, sedutora e caluniosa. É mais e menos, como se pudesse ser paradoxal e antitética ao mesmo tempo, uma amante a apenas caminhar sob seu solo, marcando a cada passo uma nova grafia, uma nova acentuação metódica e metonímica - até mesmo metalinguística - pulsante por cada mofo pregado ao chão.
Mofa nas gavetas, nas entranhas mais sombrias, parentes obscuras do próprio ato de perecer, putrefando como tantos outros órgãos, morrendo a cada bater abafado por caixas de ossos. Termina por morrer como seus interlocutores, na medida que seus passos são somente ecos indistintos numa mansão barulhenta, e dá asco ao virar somente adubo.
Asco é pouco nome para a sensação que se segue a esta morte, é um turbilhão que aflora no esôfago, porém que fervilha ainda mais no estômago, surrupia da mente aquilo que o ser em vida era para ter surrupiado - suspiros, só que estes são somente ecos guturais daqueles que deveriam ter se pronunciado. Também morrem e se enterram - se enterram todos afinal - entregando-se aos operários fúnebres e lastimáveis que a temível vida reserva em seus derradeiros momentos. Contudo, aquela que se cita anteriormente deixa um suor putrefado, uma confusão de enzimas e outros componentes biológicos, todavia, é de pouco interesse o que ela deixa, de mais interesse é o vazio que ela não preenche. Morre. A Ideia. A Imaginação. O Sonho. Sem saber que ali, morreu também uma parte de um todo maior, agora perdido - a criação.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Inspiração
Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia.
(Machado de Assis - Última Folha)
Ela foge, como uma criança malcriada, foge para qualquer lugar inóspito, ou qualquer país lunático, mas comigo jamais fica. Vem vez por outra, manda-me um cartão postal em letras garrafais com um pouco de conteúdo e o resto de blasfêmia, terminam por ser verdades, em meio as inverdades que ela solta, assim, ao vento, soltas por serem folhas de outono caídas como fios de cabelos ou flores passageiras - a murchar.
Sim, ela foge. Deixa-me só, abandona-me ao frio e no frio fico a imaginar se ela não é a errada, se ela está somente a brincar com este meu modo tão torpe e tão nebuloso de ser. Nebulosa é ela! A cantar-me as mais belas músicas, a sussurrar em meus ouvidos os mais libidinosos desejos, a encantar-me e então a lançar-me no porão, onde a espero. Espero sua presença sorrateira, seus passos descompassados, seu modo de quem viveu muito e de quem viverá muito mais.
Quando espero dela um algo mais, ela foge. E por que foge? Já não sei a resposta, só sei que se esvai como o álcool plantado naquele armário na cozinha, aquele vidro aberto onde por vezes me afogo a procurá-la, só que jamais a encontro. Voluptuosa volta, vulgar, em volúpia, somente a ver-me desfalecer ao admirar o seu ir e vir. Parece que há certo prazer em observar-me a implorar seu retorno, mas sua face é misteriosa, enigmática, jamais transparece um único pensamento e deve ser este o grande motivo pelo qual a adoro... Quando caio a contemplar-lhe o semblante, fico com certo prazer ao vê-la.
Em meu prazer, ela foge, cadê? Procuro em meio as gavetas, reviro tudo o que é nosso novamente em busca dela. Mas ela já se perdeu, quiçá nos braços de outro alguém, a gemer noturnamente nos leitos, ou brincar em um quintal de folhas e frutos. Quero-a de volta, não deveria querê-la, contudo, esta parte racional ela apaga cada vez que vem. E vindo, ela foge...
Sim, ela foge. Deixa-me só, abandona-me ao frio e no frio fico a imaginar se ela não é a errada, se ela está somente a brincar com este meu modo tão torpe e tão nebuloso de ser. Nebulosa é ela! A cantar-me as mais belas músicas, a sussurrar em meus ouvidos os mais libidinosos desejos, a encantar-me e então a lançar-me no porão, onde a espero. Espero sua presença sorrateira, seus passos descompassados, seu modo de quem viveu muito e de quem viverá muito mais.
Quando espero dela um algo mais, ela foge. E por que foge? Já não sei a resposta, só sei que se esvai como o álcool plantado naquele armário na cozinha, aquele vidro aberto onde por vezes me afogo a procurá-la, só que jamais a encontro. Voluptuosa volta, vulgar, em volúpia, somente a ver-me desfalecer ao admirar o seu ir e vir. Parece que há certo prazer em observar-me a implorar seu retorno, mas sua face é misteriosa, enigmática, jamais transparece um único pensamento e deve ser este o grande motivo pelo qual a adoro... Quando caio a contemplar-lhe o semblante, fico com certo prazer ao vê-la.
Em meu prazer, ela foge, cadê? Procuro em meio as gavetas, reviro tudo o que é nosso novamente em busca dela. Mas ela já se perdeu, quiçá nos braços de outro alguém, a gemer noturnamente nos leitos, ou brincar em um quintal de folhas e frutos. Quero-a de volta, não deveria querê-la, contudo, esta parte racional ela apaga cada vez que vem. E vindo, ela foge...
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Porcelanato
Dizer que foi um cristal é um clichê e uma inverdade, uma vez que jamais houve brilho para poder-se chamar de cristal. Parecia uma porcelana, antiga, frágil, contudo, supostamente duradoura. Um vaso opaco que carecia de brilho, porém que ainda detinha beleza dos adornos mais belos de toda a face, de todo ser. O era assim, opaco e sem vida, mas o era belo, estonteante e exótico, com sua pureza branco-leite e seu jeito de preencher os espaços.
Centralizado de modo a ser sempre o ponto para qual se seguem todos os olhares, em cima de uma mesinha bamba, meio velha e meio gasta tanto quanto a peça que em cima fingia ser rainha. Numa sala ampla e sem cor, destacava-se com sua mistura de tudo, emanando algo além das frequências luminosas, era mais, somente mais.
O vento gingava ao seu redor, como um sacerdote a contemplar a deusa, sem tocá-la, sem se aproximar demais, somente a orbitar como um planeta num sistema complexo e inabitável de forças e vontades. Jogava perigosamente ao redor da mesinha, um jogo perigoso, que levava a um sutil balançar interpretado por uma batida oca. Não obstante aos avisos, o vento parecia admirar-se com a beleza e encantava-lhe o som propagado daquele balanço irrestrito.
Tum. A porcelana tremeu, andando alguns dedos sobre a mesa, deslizando desengonçadamente sobre as farpas, quase deitando-se perigosamente.
Tum. O vento continuou, não se importava com aquele fraquejar, já o vira antes, e antes nada havia acontecido.
Tum. A deusa rolou pela mesa, de um lado a outro, do outro a um, parecendo estar sobre uma corda-bamba, sem saída, sem opções. Queria que o vento parasse, mas agora já era tarde...
Caiu. Girou. Quebrou. Espatifou-se no chão com cacos de porcelana antiga espalhados por todo o lugar, nada sobrara de sua antiga beleza, a não ser uma flor, a terra e a tranquilidade de não ter mais que se preocupar com o vento.
Centralizado de modo a ser sempre o ponto para qual se seguem todos os olhares, em cima de uma mesinha bamba, meio velha e meio gasta tanto quanto a peça que em cima fingia ser rainha. Numa sala ampla e sem cor, destacava-se com sua mistura de tudo, emanando algo além das frequências luminosas, era mais, somente mais.
O vento gingava ao seu redor, como um sacerdote a contemplar a deusa, sem tocá-la, sem se aproximar demais, somente a orbitar como um planeta num sistema complexo e inabitável de forças e vontades. Jogava perigosamente ao redor da mesinha, um jogo perigoso, que levava a um sutil balançar interpretado por uma batida oca. Não obstante aos avisos, o vento parecia admirar-se com a beleza e encantava-lhe o som propagado daquele balanço irrestrito.
Tum. A porcelana tremeu, andando alguns dedos sobre a mesa, deslizando desengonçadamente sobre as farpas, quase deitando-se perigosamente.
Tum. O vento continuou, não se importava com aquele fraquejar, já o vira antes, e antes nada havia acontecido.
Tum. A deusa rolou pela mesa, de um lado a outro, do outro a um, parecendo estar sobre uma corda-bamba, sem saída, sem opções. Queria que o vento parasse, mas agora já era tarde...
Caiu. Girou. Quebrou. Espatifou-se no chão com cacos de porcelana antiga espalhados por todo o lugar, nada sobrara de sua antiga beleza, a não ser uma flor, a terra e a tranquilidade de não ter mais que se preocupar com o vento.
domingo, 11 de dezembro de 2011
Precoce
Sua mãe o teve antes dos vinte,
Precoce gravidez antes da hora.
Por nascer assim antes de pronto,
A vida o tomou antes de nada.
Desconheceu o pai antes de vê-lo
Descobriu o mundo antes da escola
Fugiu de casa antes dos quinze
Sumiu no mundo antes das provas
Sua mãe pereceu antes de morta
A espera de um dia antes do mundo
E esperando morreu antes de nova
Na esperança vã de antes de outrora
Ele desencaminhou-se antes de jovem
Por escolha, infeliz antes da estrada
Sua galhardia desfez-se antes da cena
Fatalidade de estrada antes da casa
O ferro destrouçou-lhe antes do corpo
o rosto, a face de antes da parda
pele, a mercê da vida antes do nada
Na calçada morreu, antes do socorro.
Precoce gravidez antes da hora.
Por nascer assim antes de pronto,
A vida o tomou antes de nada.
Desconheceu o pai antes de vê-lo
Descobriu o mundo antes da escola
Fugiu de casa antes dos quinze
Sumiu no mundo antes das provas
Sua mãe pereceu antes de morta
A espera de um dia antes do mundo
E esperando morreu antes de nova
Na esperança vã de antes de outrora
Ele desencaminhou-se antes de jovem
Por escolha, infeliz antes da estrada
Sua galhardia desfez-se antes da cena
Fatalidade de estrada antes da casa
O ferro destrouçou-lhe antes do corpo
o rosto, a face de antes da parda
pele, a mercê da vida antes do nada
Na calçada morreu, antes do socorro.
sábado, 3 de dezembro de 2011
Preto e branco
Circunscritos em seu próprio âmago, circundavam a si em uma ação reflexiva e paciente, um ao outro, o outro a um. Eram duas metades do mesmo todo, amparadas apenas pelo existir, mas o que era de fato existir, senão ter batimentos e alguma brecha para a atuação de um sistema nervoso, ou ser somente uma ilusão, baseada na filosofia de Descartes, na qual podemos ser deuses de nosso próprio mundo, movidos e munidos apenas de impulsos elétricos passados por uma consciência inoperante...
Aqueles dois seres existiam, na síndrome dualística e psicótica de sempre ser dois e um ao mesmo tempo, agonizavam em conjunto, mesmo que por vezes devessem ser antagônicos, ou rivais, não havia rivalidade naquele sentido profundo e inimaginável, somente uma sintonia além da vida e da morte, enraizada no mais íntimo daqueles seres, uma conexão de natureza exotérica e louca racionalidade. Paradoxal, embora seja, em qualquer íntimo calejado, um tanto óbvio de se presumir tal afirmativa.
Desta forma lucidamente delirante, pairavam no tempo-espaço em seu interminável rondar, presos em suas correntes e daquelas que não se submetem ao decompor dos tempos. Eram estruturas únicas e unidas, no universo, para sempre - até quando o sempre o fosse eterno.
Em preto e branco, branco e preto, e toda a dialética de cores fracionadas aos montes, continuavam em sua balança relativística, a se equilibrar eternamente, acionando uma espécie de desfibrilador que já não agia no coração - por mais que este merecesse alguns ampéres para ressuscitar de sua alva pedra. Estavam presentes em todos os locais, singelos em seu ímpar e cansado caminhar, deveriam dormir por algum beco, pendurados em alguma parede analisando-se por todo o sempre enquanto o mundo não enxergava seu sentido de mutualidade e cooperação. Quem sabe noutras eras, noutros tempos? Esperariam os próximos séculos.
Aqueles dois seres existiam, na síndrome dualística e psicótica de sempre ser dois e um ao mesmo tempo, agonizavam em conjunto, mesmo que por vezes devessem ser antagônicos, ou rivais, não havia rivalidade naquele sentido profundo e inimaginável, somente uma sintonia além da vida e da morte, enraizada no mais íntimo daqueles seres, uma conexão de natureza exotérica e louca racionalidade. Paradoxal, embora seja, em qualquer íntimo calejado, um tanto óbvio de se presumir tal afirmativa.
Desta forma lucidamente delirante, pairavam no tempo-espaço em seu interminável rondar, presos em suas correntes e daquelas que não se submetem ao decompor dos tempos. Eram estruturas únicas e unidas, no universo, para sempre - até quando o sempre o fosse eterno.
Em preto e branco, branco e preto, e toda a dialética de cores fracionadas aos montes, continuavam em sua balança relativística, a se equilibrar eternamente, acionando uma espécie de desfibrilador que já não agia no coração - por mais que este merecesse alguns ampéres para ressuscitar de sua alva pedra. Estavam presentes em todos os locais, singelos em seu ímpar e cansado caminhar, deveriam dormir por algum beco, pendurados em alguma parede analisando-se por todo o sempre enquanto o mundo não enxergava seu sentido de mutualidade e cooperação. Quem sabe noutras eras, noutros tempos? Esperariam os próximos séculos.
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