sexta-feira, 11 de maio de 2012

Reticências


Queria, em minha suprema ingenuidade, que fosse de tal modo diferente, de tal forma suave e pueril que tamanho resplandecer não se apagasse em meio aquela branca e doentia cúpula... Queria que aquele lamacento cinza-amarronzado perdurasse na limpidez astuta de um vale enrugado...

Não, jamais quereria este maldito sal bruto a secar-me a face, nem tampouco desejava ver o brilhante se tornar opaco com as camadas de poeira depositadas sobre a tez enrugada... Queria que o sussurro dos eucaliptos não ficasse restrito ao papel amarelado e ao negro da tinta (a qual já me lembra da negritude do que há de vir, os dias e sua marcha fúnebre - literalmente) a canção é, e sempre será, mais bela quando entoada pela antiga voz das florestas, aquelas mesmas com as ninfas e as sereias e os espíritos. Aquelas florestas que me narrava e eu, como pura e ingênua criança, tão arduamente desejava encontrar... Sim, as tuas florestas.

Queria que o abismo fosse somente ilusão de ótica, destas incompreensíveis e indecifráveis, porém, isto talvez já o seja... Queria que o portal do tempo, aquele que transportava os séculos nas tuas estórias, se materializasse ao som daquela canção profunda e silenciosa que somente tu sabias entoar, e que este portal pudesse então apagar os erros - genéticos e humanos... Queria que a corda de teu violão não se rompesse e que ele não fosse somente mais outra peça guardada no armário com uma sutil e longínqua e doce lembrança. Queria que ele não ficasse esquecido, e que tomasse vida ao som daquela voz - a tua voz - que preenchia cada milímetro da porta de entrada até o fundo do quintal...

Queria... Queria... Queria que esses meus quereres não fossem somente pequenos e enfadonhos diante da necessidade estática que tens. É tão ínfimo. Tão inocente e tolo diante desta já esfarelada esperança que alcança somente este âmbito do desejo e se perde nos fios ralos de teu cabelo esbranquiçado... Sobram-me somente os eucaliptos, silenciosos e negros... Negros como os dias que hão de vir. Negros como essa sensação amarga e o nó que prende-se a garganta no tênue momento que largo a pena e me contento a ter somente uma certeza... Esta única.