quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Brinde

Da sofreguidão que o silêncio nos prega,
Desejo a pouca luz  e abrigo cálido.
Da jornada que o tempo nos impõe,
Desejo a incerteza de todo amanhã.
Da escuridão pela noite pintada,
Desejo somente uma boa noite de sono.
Das luzes que o alvorecer nos emite,
Desejo não ver as manhãs de sol.
Da dor que o coração sente,
Desejo acreditar que é passageiro.
Das águas que lavam a face,
Desejo o não saber de onde escorrem.
Do aperto que nos é transmitido,
Desejo a pureza de um abraço.
Dos olhos inseguros de outrem,
Desejo as boas venturas e os bons olhares.
Das viradas das páginas amareladas,
Desejo uma esperança de melhora.
Das esperanças que as melhoras trazem,
Desejo a vida, pura, simples e atenta.
Da vida pregada em árduas penas,
Desejo somente a certeza de tê-la vivido.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Pena

Ela discorre com sua forma lânguida, apressada a soltar o que não se deve nem sequer pensar, soa sórdida, ainda que angelical, soa pura ainda que visceral, surrupia os sentidos como um narcótico, entorpece-os como um veneno a sabotar todas as sinapses nervosas. É calmante, porém sabe ser cruel, expositiva, sedutora e caluniosa. É mais e menos, como se pudesse ser paradoxal e antitética ao mesmo tempo, uma amante a apenas caminhar sob seu solo, marcando a cada passo uma nova grafia, uma nova acentuação metódica e metonímica - até mesmo metalinguística - pulsante por cada mofo pregado ao chão.

Mofa nas gavetas, nas entranhas mais sombrias, parentes obscuras do próprio ato de perecer, putrefando como tantos outros órgãos, morrendo a cada bater abafado por caixas de ossos. Termina por morrer como seus interlocutores, na medida que seus passos são somente ecos indistintos numa mansão barulhenta, e dá asco ao virar somente adubo.

Asco é pouco nome para a sensação que se segue a esta morte, é um turbilhão que aflora no esôfago, porém que fervilha ainda mais no estômago, surrupia da mente aquilo que o ser em vida era para ter surrupiado - suspiros, só que estes são somente ecos guturais daqueles que deveriam ter se pronunciado. Também morrem e se enterram - se enterram todos afinal - entregando-se aos operários fúnebres e lastimáveis que a temível vida reserva em seus derradeiros momentos. Contudo, aquela que se cita anteriormente deixa um suor putrefado, uma confusão de enzimas e outros componentes biológicos, todavia, é de pouco interesse o que ela deixa, de mais interesse é o vazio que ela não preenche. Morre. A Ideia. A Imaginação. O Sonho. Sem saber que ali, morreu também uma parte de um todo maior, agora perdido - a criação.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Inspiração

Musa, desce do alto da montanha 
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos 
A última harmonia.
(Machado de Assis - Última Folha)

Ela foge, como uma criança malcriada, foge para qualquer lugar inóspito, ou qualquer país lunático, mas comigo jamais fica. Vem vez por outra, manda-me um cartão postal em letras garrafais com um pouco de conteúdo e o resto de blasfêmia, terminam por ser verdades, em meio as inverdades que ela solta, assim, ao vento, soltas por serem folhas de outono caídas como fios de cabelos ou flores passageiras - a murchar.

Sim, ela foge. Deixa-me só, abandona-me ao frio e no frio fico a imaginar se ela não é a errada, se ela está somente a brincar com este meu modo tão torpe e tão nebuloso de ser. Nebulosa é ela! A cantar-me as mais belas músicas, a sussurrar em meus ouvidos os mais libidinosos desejos, a encantar-me e então a lançar-me no porão, onde a espero. Espero sua presença sorrateira, seus passos descompassados, seu modo de quem viveu muito e de quem viverá muito mais.


Quando espero dela um algo mais, ela foge. E por que foge? Já não sei a resposta, só sei que se esvai como o álcool plantado naquele armário na cozinha, aquele vidro aberto onde por vezes me afogo a procurá-la, só que jamais a encontro. Voluptuosa volta, vulgar, em volúpia, somente a ver-me desfalecer ao admirar o seu ir e vir. Parece que há certo prazer em observar-me a implorar seu retorno, mas sua face é misteriosa, enigmática, jamais transparece um único pensamento e deve ser este o grande motivo pelo qual a adoro... Quando caio a contemplar-lhe o semblante, fico com certo prazer ao vê-la.


Em meu prazer, ela foge, cadê? Procuro em meio as gavetas, reviro tudo o que é nosso novamente em busca dela. Mas ela já se perdeu, quiçá nos braços de outro alguém, a gemer noturnamente nos leitos, ou brincar em um quintal de folhas e frutos. Quero-a de volta, não deveria querê-la, contudo, esta parte racional ela apaga cada vez que vem. E vindo, ela foge...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Porcelanato

Dizer que foi um cristal é um clichê e uma inverdade, uma vez que jamais houve brilho para poder-se chamar de cristal. Parecia uma porcelana, antiga, frágil, contudo, supostamente duradoura. Um vaso opaco que carecia de brilho, porém que ainda detinha beleza dos adornos mais belos de toda a face, de todo ser. O era assim, opaco e sem vida, mas o era belo, estonteante e exótico, com sua pureza branco-leite e seu jeito de preencher os espaços.

Centralizado de modo a ser sempre o ponto para qual se seguem todos os olhares, em cima de uma mesinha bamba, meio velha e meio gasta tanto quanto a peça que em cima fingia ser rainha. Numa sala ampla e sem cor, destacava-se com sua mistura de tudo, emanando algo além das frequências luminosas, era mais, somente mais.

O vento gingava ao seu redor, como um sacerdote a contemplar a deusa, sem tocá-la, sem se aproximar demais, somente a orbitar como um planeta num sistema complexo e inabitável de forças e vontades. Jogava perigosamente ao redor da mesinha, um jogo perigoso, que levava a um sutil balançar interpretado por uma batida oca. Não obstante aos avisos, o vento parecia admirar-se com a beleza e encantava-lhe o som propagado daquele balanço irrestrito.

Tum. A porcelana tremeu, andando alguns dedos sobre a mesa, deslizando desengonçadamente sobre as farpas, quase deitando-se perigosamente.

Tum. O vento continuou, não se importava com aquele fraquejar, já o vira antes, e antes nada havia acontecido.

Tum. A deusa rolou pela mesa, de um lado a outro, do outro a um, parecendo estar sobre uma corda-bamba, sem saída, sem opções. Queria que o vento parasse, mas agora já era tarde...

Caiu. Girou. Quebrou. Espatifou-se no chão com cacos de porcelana antiga espalhados por todo o lugar, nada sobrara de sua antiga beleza, a não ser uma flor, a terra e a tranquilidade de não ter mais que se preocupar com o vento.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Precoce

Sua mãe o teve antes dos vinte,
Precoce gravidez antes da hora.
Por nascer assim antes de pronto,
A vida o tomou antes de nada.

Desconheceu o pai antes de vê-lo
Descobriu o mundo antes da escola
Fugiu de casa antes dos quinze
Sumiu no mundo antes das provas

Sua mãe pereceu antes de morta
A espera de um dia antes do mundo
E esperando morreu antes de nova
Na esperança vã de antes de outrora

Ele desencaminhou-se antes de jovem
Por escolha, infeliz antes da estrada
Sua galhardia desfez-se antes da cena
Fatalidade de estrada antes da casa

O ferro destrouçou-lhe antes do corpo
o rosto, a face de antes da parda
pele, a mercê da vida antes do nada
Na calçada morreu, antes do socorro.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Preto e branco

Circunscritos em seu próprio âmago, circundavam a si em uma ação reflexiva e paciente, um ao outro, o outro a um. Eram duas metades do mesmo todo, amparadas apenas pelo existir, mas o que era de fato existir, senão ter batimentos e alguma brecha para a atuação de um sistema nervoso, ou ser somente uma ilusão, baseada na filosofia de Descartes, na qual podemos ser deuses de nosso próprio mundo, movidos e munidos apenas de impulsos elétricos passados por uma consciência inoperante...

Aqueles dois seres existiam, na síndrome dualística e psicótica de sempre ser dois e um ao mesmo tempo, agonizavam em conjunto, mesmo que por vezes devessem ser antagônicos, ou rivais, não havia rivalidade naquele sentido profundo e inimaginável, somente uma sintonia além da vida e da morte, enraizada no mais íntimo daqueles seres, uma conexão de natureza exotérica e louca racionalidade. Paradoxal, embora seja, em qualquer íntimo calejado, um tanto óbvio de se presumir tal afirmativa.

Desta forma lucidamente delirante, pairavam no tempo-espaço em seu interminável rondar, presos em suas correntes e daquelas que não se submetem ao decompor dos tempos. Eram estruturas únicas e unidas, no universo, para sempre - até quando o sempre o fosse eterno.

Em preto e branco, branco e preto, e toda a dialética de cores fracionadas aos montes, continuavam em sua balança relativística, a se equilibrar eternamente, acionando uma espécie de desfibrilador que já não agia no coração - por mais que este merecesse alguns ampéres para ressuscitar de sua alva pedra. Estavam presentes em todos os locais, singelos em seu ímpar e cansado caminhar, deveriam dormir por algum beco, pendurados em alguma parede analisando-se por todo o sempre enquanto o mundo não enxergava seu sentido de mutualidade e cooperação. Quem sabe noutras eras, noutros tempos? Esperariam os próximos séculos.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A-to-mística

Um pouco de fisico-química para compreender a filosofia...


Naquela era, antiga e relembrada, sentaram-se a discutir o que formaria o todo e então foi concluído que a medida que se partisse, quebrasse, triturasse e moesse, fatalmente encontrariam a minúscula parte que constituía tudo.

Era indivisível e deram-lhe o nome de átomo (de sua língua a - não, tomo - divisão) destes haviam vários tipos, os esféricos, os cúbicos, os pontiagudos. Maciços e inseparáveis - assim também acreditei.

Acreditei que eram um ponto, destes que reluzem em meio a multidão, cuja a volta dos elétrons a sua camada de origem apenas o fazia liberar mais energia, energia esta para suportar nossos demônios, cultivar nossas hortas, colher de nossas plantações.

Deste pequeno corpo, poeira cósmica a pairar solta, foi-se descobrindo cada vez mais e a medida que mais se descobria, menos se ratificava e ainda menos se sabia. A Era era um pouco mais recente e descobriu-se que aquele ponto era formado por partes distintas, opostas entre si, contudo, devido a uma lei básica, continuavam unidas. Em uma mistura de analogia estranha e arquitetura alienígena, porém, teoricamente, era a ciência.

Pouco mais tarde, o dogma da inseparabilidade foi quebrado, assim como aquele de ser um só havia sido anteriormente. Agora esse ponto indivisível, era constituído de um sistema planetário - ou algo similar a este - e, ao redor de algumas estruturas positivas, orbitavam outras estruturas assim ditas "negativas", e nisto iam e voltavam com incentivos de pequenos pacotes, o problema foi quando eles se perderam...

Mesmo após a perda (ou ganho, dependendo do referencial) da carga - e consequentemente, equilíbrio - aquele nucleozinho continuou junto, as vezes apareciam alguns elétrons para acompanhar-lhes, todavia, como todos os outros, a energia lhes era dada e eles sentiam-se livres novamente.

Eram inseparáveis microscopicamente, unidas por leis invisíveis - literalmente - nem mesmo certos estudos podiam explicar... Sim, eram indestrutíveis e inseparáveis, então surgiu a radioatividade e de um núcleo fez-se vários...
 

Castelos de areia

Acreditamos ter construído um castelo de pedra, mas no final, não passava de poeira.

Os dias contados não me servem à memória, sei que foram mais de duzentos e menos que seiscentos, mas também não importa. O tempo não infere na exatidão e intensidade de certos sentimentos, estes são atemporais e se mostram imutáveis em suas essências.

Eu era menina, sentada na praia a construir castelos, mas quase todos desmoronavam antes mesmo de retirar-lhes o molde. Fazia pouco que tinha vindo parar num local muito maior e com muito mais gente do que o costumeiro. Via os diversos castelos erguidos, mas não conseguia entrar em nenhum... Por isso, pus-me a erguer um só meu. Só que este cedia antes mesmo do alvorecer... Foi quando chegaste junto a mim.

Em princípio, parecias ser balança com a fórmula exata do equilíbrio, sentaste ao meu lado e juntas nos pusemos a misturar areia e água em busca do ponto ideal.

O tempo foi passando e pacientemente fomos erguendo. Sala por sala. Talvez até Grão por grão. Pusemos fosso e reforço em seus alicerces e quando, quando uma parte desmoronava, uma de nós tratava em reerguer. E, enquanto a maré estava calma, tudo estava bem...

Intercalávamos turnos de vigília e, quase todos os dias, tínhamos de reconstruir a muralha, reforçar a base, compor novos cômodos. Pena que quanto maior nossa obra, mais difícil era mantê-la em pé.

Contrário ao que desejávamos - ou ao menos ao que eu desejava - a maré vinha subindo e subia tão devagar que não pressentimos o perigo, não vimos a umidade a penetrar em nossas torres e a provocar rachaduras.

Certo dia, enquanto ocupávamos de nossos afazeres diários, tropeçaste na muralha e derrubaste alguma parte dela. Não havia sido muito, mas era o suficiente para que a água passasse e fizesse tudo desmoronar...

O que de resto sucedeu, não lembro com exatidão, me pediste para consertar a fresta de teu tropeço e eu, por um motivo qualquer, não atendi o teu pedido em tempo hábil. No próximo segundo a água lavou nosso castelo e jogou-o ao chão.

Sei que hoje talvez me culpes pela queda de nosso castelo, sei que no primeiro momento também te culpei, mas hoje percebo - com apenas um pouco mais de maturidade - que não há uma culpada e não reerguemos o castelo, não porque não quisemos, mas por termos crescido de menos e não é mais apropriado construir castelos na areia.

Hoje, já não me olhas. Talvez por não querer lembrar, talvez porque ainda precises superar a demolição daqueles dias, ou talvez por outro motivo qualquer. Contudo, eu só posso esperar e espero para que quando nossos filhos e netos (ou filhas e netas) estiverem na tenra idade de construir castelos, sentemo-nos e ensinemos a eles. Para que não tropecem na muralha, ou se esqueçam de reerguê-la. E quem sabe talvez, quando esse dia chegar, não tenhamos amadurecido o suficiente para sentar junto às crianças e passar a reerguer nosso próprio castelo.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Nota queimada

Do sutil tocar de sapatilhas, fez-se a música. E o corpo dela era harpa, a ressoar a melodia em movimentos leves. Suavidade angelical encarnada em ossos, tendões, músculos e órgãos - a mover-se.

O vento era maestro, envolvendo a plateia vazia em febril levitação, brincava de brindar ao silêncio e o Silêncio era letra, cantada pelo coro de luz e mansidão. Interpretava o tilintar de seus sentimentos puros deixando a música reger sua arte, ascendendo em inimaginável beleza e descendo em inimaginável suavidade... Era a musa e a poetisa.

E no palco ela era estrela.

A seda fina e alva era cobertor e tecia-se ao seu redor, protegendo-a como uma mãe ao filho, adornando as curvas como neblina a encobrir a beleza das montanhas. Esvoaçando a envolver a pele o tecido dançava com ela, seguia seus passos, acompanhava seus gestos, mimetizava sua magia. A lua sorria-lhe com encanto, adorando o anjo a bailar no telhado, entretendo-se com sua habilidade naquela arte de se expressar sem palavras ou entonações... Ela encantava simplesmente por andar.

E na noite ela era só.

Não era teatro, o palco de sua singela apresentação, o assoalho não era composto de grossas toras perfeitamente lisas, nem envernizado, nem tinha nada de luxuoso ou perene. Apenas cimento batido. Não contava com detalhes arquitetônicos encantando os olhos, saciando o sabor de ver o que a mente desejava. Contava tão e somente com uma estrutura de madeira e concreto, localizada nas cinzas e no pó, nos contornos, na beirada, de onde todos queriam sair e nenhum desejava chegar.

E na pobreza ela era alento.

A natureza morta era cenário, pintada com poeira, suor e fumaça envolvendo a construção corroída pelo ácido dos tempos, canto onde as idades e anos eram iguais em sua diferença. Não existia inocência, apenas fome; não existia infância, apenas sede.

E em destaque ela era pueril.

E do grito fez-se chama, mas antes já a havia, e da vela surgiu o fogo, consumindo tudo apressadamente.

E na madeira ele era sedento.

O crepitar lhe serviu de batida, ritmando seus passos marcados, dando-lhes norte a seguir em seu cirandar. Os gritos e o alvoroço cantarolavam acordes na frieza altiva da noite.

E no calor ela era beleza.

O vermelho devorou as toras, partindo-as sem misericórdia, rompeu as vigas sem piedade e ascendeu, sem a suavidade do levitar. Andar por andar, a alimentar-se do concreto, nas explosões e nos tombares. Digerindo as moradas. Nele lançaram água, mas no primeiro contato o líquido dissipou-se em fumaça e de nada adiantou, ele continuava a subir em força e brutalidade.

E na calada ele era desperto.

As sirenes anunciaram o ápice, indicaram o auge de seu compor melódico e valsado. As cordas da harpa que era seu corpo vibravam febris e desesperadas, mas não havia desespero em sua face; contraditória a todo o seu cenário a ruir ela estava em paz.

E no barulho ela era calma.

O fogo chegou ao telhado e sem hesitar invadiu o palco, como se exigisse para si o papel da ninfa que bailava, não havia clemência em sua atuação, não era ator, acostumado a interpretar papéis. Das folhas apenas conhecia o gosto e as cinzas dos dejetos. A beleza lhe era indiferente.

E no queimar ele era cego.

Primeiro, rasgou-lhe a seda, despiu-lhe o corpo, enquanto ela bailava indiferente a sua brutalidade - talvez em protesto, talvez em inocência - com uma agora vestes de chama, a dançar. Depois a beleza fez-se exótica e eroticamente ele usou de suas línguas-labaredas para lamber-lhe o corpo - languidamente. Membro a membro devorou-a como miserável, satisfez-se em sua pele como esfomeado, tomou para si a sua carne - e dela se banqueteou, apalpou-lhe coxas e seios e sentiu verdadeiro prazer ao vê-la desfalecer em seu caloroso abraço...

E nos escombros ela tornou-se cinzas.

domingo, 27 de novembro de 2011

Saiba... - nascido de uma discussão, escrito por algo mais que as mãos.

Eu queria que você soubesse que de nada adianta discutir comigo em dias ruins, porque cada discussão me arranca alguns pedaços e destes pedaços em falta, nada vai me restando e quando mais nada me restar, restará apenas a certeza da perda - espero que entenda.

Eu queria que você soubesse que tem dias nublados que são perfeitos, mesmo com o cinza e com a aparente tristeza e dias que o sol vai brilhar, os pássaros vão cantar, mas por dentro apenas haverá caos e no caos só me sobrarão as lágrimas e uma mania irritante de disfarçar tudo no mais belo sorriso.

Eu queria que você soubesse que tenho dias tão ruins quanto os seus, pensamentos fúnebres, incertezas, medos, tristezas e mágoas tão profundas que por vezes acredito piamente que as esqueci, que minha mania de tomar banho após uma irritação é apenas isso: uma mania, mas que muito provavelmente é na água que sinto a mansidão que não posso ter...

Eu queria que você soubesse que não sou antiquada, sou atemporal, nasci no século errado, mas talvez os anteriores também não fossem certos, tenho apenas manias doutras eras, só que não significa que pertença a elas.

Eu queria que você soubesse que sou cabeça-dura, turrona, sentimental, abestalhada, mandona, vingativa e confusa, que sim! Eu choro em filmes e livros, gosto de ouvir música trash de vez em quando e que penso em como seria bom voltar no tempo. Que penso em casar, mas não na igreja, e em ter filhos, que não quero ser rica nem famosa desejo apenas uma vida normal com algum dinheiro e uma boa família, que valorizo os estudos e nunca quis ninguém tanto quanto a você, mas que me decepciono com alguns valores e ações e essa decepção fica entalada em minha garganta - e nela perece.

Eu queria que você soubesse que amigos são amigos e amantes são amantes, que meus amigos são irmãos, mas você é um amigo e um amante e isto configura um amor.

Eu queria que você soubesse que não sou de gritar e odeio gritos, que não sou igual a todos, ou todas, e que tenho meu próprio modo de enfrentar os problemas e mesmo que não concorde sou assim e assim continuarei...

Eu queria que você soubesse que por muitas vezes calei para evitar discussões e ainda me calo, que pode ser que um dia eu tenha tudo que preenche os sonhos e as fantasias de muitos, mas que eu no fundo só quero uma boa cama, boa casa e paz. Seja onde for.

Eu queria que você soubesse que não sou perfeita, não finjo ser e possivelmente jamais o serei, mas que quero tentar melhorar sempre e que, no que depender de mim, alguma coisa será sempre melhorada.

Eu queria que você soubesse que apenas precisava desabafar, perdoe se o irritei mais ainda, se seu dia está uma droga e ler este pequeno texto foi perda de tempo... É que no final das contas eu só queria que você soubesse...

Jazigo em paz

Do vento tudo o que sinto é o afagar gentil do ar a minha volta. Mecânico. Gerado. Artificial. A lamber a face como amante sedento das súplicas - súplicas estas que minhas pregas vocais fartam-se de ecoar. Em suma e solitária cela, aparenta-me que os destinos foram selados, com a cera silvestre e libertina cuspida por lábios inertes, e que as carícias são somente como o vento a acariciar-me a face - mecânicas e artificiais.

A chuva comprime a mente, o corpo e o peito dói, habitado por uma triste incerteza de que tudo vai dar certo no final, pulsa debilmente, gesticula desesperado - como podem não vê-lo? Como podem não ver-me? Os anos são tão breves quanto o encontrar das pálpebras ou a rotação terrestre, mas aparenta ser sempre o mesmo status, um enorme divisor de águas. Que seja então.

A dor continua pulsante, viva, natural. Sei que continuará até que tudo isto se apague, sei que é tolice desistir, mas que provação é esta que nem ao menos escapatória permite? Onde está a lanterna dos afogados? O farol do cais? A luz do fim do túnel? Ainda estou tão longe ao ponto de não enxergá-la, ou nem trilhei o necessário para poder admirar seu sinal de esperança? Maldita Pandora! A trancafiar essa centelha inócua num vaso, amarga luz de um vaga-lume...

Todo o corpo implora, o mar que abandona-me os olhos - analogamente a todo vaga-lume - deixa um rastro agonizante, marcado pelo ardor de minha retina - ou o que me arde é aquilo que a opera? - as pernas fraquejam e, mesmo que haja outros braços e pernas para me segurar, está me soando preferível cair - retumbar no solo infértil em busca de algum retiro milagroso... Nessa dança de horrores, o órgão que pulsa protegido por um cercado de ossos é o que mais agoniza meu ser, mesmo assim, continua em sua árdua tarefa - bater.

Que agonia insuportável! A mão ergueu-se até aquele ponto amargo e as unhas rasgaram o peito com ferocidade animalesca, por debaixo do esterno, afinal era um ponto sem ossos a proteger aquele pulso vivo e incessante. Continuou cortando e dilacerando a carne - cada fio e fibra muscular - até aprisionar aquela frequencia em um apertar firme. A dor pareceu diminuir, mas não chegou ao fim. Com um ruído eletrizante aquele órgão estava em minha mão.

Com um último sacrifício, pus-me a descansar. Em minha mão jazia o sangue, a carne, a pele e aquele pedaço inútil de musculatura - com dois átrios e dois ventrículos - repousando, finalmente sem bater.

Desesperadamente, bebo

Chorava e ao invés de enxugar-me as lágrimas, sorvendo-as com qualquer manto, ele me as guardava em uma conserva e me fazia bebê-las, pouco a pouco, sentindo os diversos gostos, juntos e separados - paradoxais e distintos por natureza.
Por vezes a bebida era doce, suave, sutil; por vezes tão sem gosto que se assemelhava a nada, como a rotina, como a monotonia. E por vezes, tantas e tantas, era insuportável tragá-la, apenas seu cheiro me enojava, apenas sua viscosidade dava-me asco, mesmo assim obrigava-me a beber-lhe e apreciar-lhe. Assim o fazia, dia após dia.
Ele era tão severo, perguntava-lhe o porquê de tanta provação?
E ele respondia: não é nada.
- Se nada não é, por que continuas?
- Porque devo.
- Deves? Deves? Deveria eu dizer que os obstáculos estão criando falhas em meu molde já falho? E que estas falhas só tendem a aumentar, porque este infame jogo continua?
- Devo.
- Então mate tua dívida, mate-me de uma vez, leve-me para o nada e de nada me faça valer! Já não posso suportar tanto suplício, já não posso viver em tamanha provação.
- Desiste - afirmou em pergunta.
A palavra pesa impressa na fronte. Seu peso é maior do que o viscoso líquido, ele me conhece - bem até demais - sabe que tal verbo é inexistente em meu vocabulário, sabe que a saída mais fácil é - para mim - a última das últimas opções.
- Dá-me o copo - exigi, por fim.

Congratulações

O Fogo trepidava sobre a Água, enquanto pares de pássaros sussurravam seus íntimos lamentos, a luz e a sombra bailavam juntas, numa dança plena e única da qual nenhum registro jamais alcançará tal plenitude em descrever.

A Terra e o Ar conversavam como antigos amigos - o que de fato o eram - debatendo alegremente sobre suas peculiaridades e forças. Marte e Vênus orbitavam em torno do Sol eclipsado, cada metade tinha um todo, mas já não se era todo em metade...

Cada pensamento, cada palavra, cada ação, cada intenção. As fontes e as musas dançavam - duas a duas, a que sobrou não sobrava, dançava com Mercúrio - a música e a melodia conversavam e de sua voz saiam as mais adoráveis anedotas... Cada qual com seu quê, cada quê com seu qual, riam ao som das dezessete velas.

Dezessete... Número vazio, por que estava ali mesmo? Ah! Apenas pela festa desconhecida me pertencer, a torta de andares vazios e enfeites distantes. Cada risada era uma lembrança do que faltava - alegria.

Olhei para o céu e ri ironicamente, mesmo que a minha parte me falte, mesmo que meu todo seja quebrado, mesmo que nada me seja agradável - em todos os sentidos que o nada me pode ser - É lua cheia.

Maldita esperança.

Malditas velas.

Maldito sopro.

Hipnos

Oh, doce pêndulo!
Que vem e vai sedento
que vai e vem atento
em vicioso entorpecer.
Deixas-me de ti cativa;
Deixas-me livre, altiva
em teu acre bem-querer.

Sugeriste - puro - a mim,
em adoráveis momentos,
cada sonho, cada tormento
de minh'alma esquecidos...
E tomaste meu não, meu sim
arfante, torpe, sussurrado
a meia luz, como alento.

De minhas cinzas fizeste
o que jamais fora feito
Bebeste de meu leito,
Sorriste em meu pranto
Pediste, outorgaste e levaste
o que não poderia ser levado
Então te fostes só. E só me deixaste

Oh, pêndulo maltdito!
Por que tanto tardas
em teu retorno?
Por que sumiste e partiste
para longe de tua metade,
para onde não te vejo,
para locus sem consolo?

Envelope em veneno

Querido,

Não te escrevo apenas sob o pretexto de narrar-lhe um pouco dos meus últimos dias, como também pela vontade inerente de poder falar-te, ainda que saiba que esta será uma via única, na qual o diálogo será mero monólogo de minha parte.

Acabei de voltar de nosso encontro, o dia estava - e ainda está - muito belo, o céu está do modo que gostas - um sol escondido em meio as nuvens brancas, aquele véu que cobre o dia - tão bonito! Senti sua falta ao caminhar por nosso parque predileto, vestida com o negro que também apreciavas em minha pele branca, vários homens contemplaram-me e até chegaram a tentar me cortejar, mas não os quero...
A família parece estranhamente mais feliz com nossa separação, de princípio acreditei que fosse excesso da parte deles, depois percebi que de fato encontram-se aliviados, quase posso escutar tua voz sussurrando em meu ouvido em meio tom exasperado: "Prevísivel"; mas o que posso fazer? Continuam a ser meus pais e ao término ainda se preocupam com meu bem estar.
A mão me é frouxa e inimiga, fui visitada pelo Nobre senhor, mas não o desejo como a ti desejei - de corpo e alma, de sangue e pulso - ele pediu o desposar, o que é tardio e de mal gosto, uma vez que todos sabem que foste meu único e eterno esposo...
Oh! Como queria que tudo não passasse de mais lúgebre devaneio, que cada silêncio não fosse incômodo e perpétuo, que cada leito não me lembrasse o leito cálido de teus braços... Infelizmente, não é um devaneio.
Esta carta é a última, perdoe-me por desistir tão cedo, tentei com ímpeto continuar, seguir adiante, mas adiante sempre me foi um conceito relativo e já perdi as forças para prolongar a caminhada. Desculpe se pareço-te fraca, apenas não sei persistir. Necessito de todo meu ser unir-me novamente a ti e é por estes motivos que te escrevo. Já não estou me despedindo, venho dizer-te que irei a teu encontro.

Com afeto,
Juliet.

Eclipsado

Fria e cálida. Gelo e fogo. Cada arfar escorregadio e fluido era acompanhado por um respirar entrecortado das flores e folhas; batia e bajulava com ardor e calma em cada uma. Ó vento sutil e fervoroso! Jamais poderia se igualar o principal, afinal, os grandes astros e estrelas ainda estavam por vir e o porvir era cauteloso, incerto e sempre crucial.

Apareciam os primeiros raios turvos de luz, formando o cinza-matinal, decerto intrépido e poderoso, mas melancólico em seu vagar de ser tudo e nada ao mesmo tempo. Trovoara na noite anterior. Thor e suas demonstrações, sempre querendo igualar-se aqui e acolá, sem jamais obter o prêmio final de todo homem. As joias submersas nas conchas mais inalteradas pelo tempo, a pedra mais preciosa de toda uma joalheria.

No refracionar da luz em sete, subiu lentamente, sem pressa, relaxado, abrindo caminho por entre uma meia-escuridão, provocando uma meia-claridade. Levava em si o poder de ser, de estar e compreender. Fertilizava uma plantação inteira, mas pouco o interessava as plantações e as florestas, muito menos os montes e as montanhas, só interessava-se em sua grande receptora final.

Entre beija-flores trabalhadores, zangões, pássaros e morcegos - dentre vários outros animais - ele reinava como grande mestre, talvez não fosse responsável pela polinização, mas irradiava vida e sem sua onipotente presença nada se faria possível. Interessava-se em somente uma rainha, mas esta estava distante e ausente, separada desde o momento de sua concepção e - até o sinal do fim dos tempos - permaneceria assim, cada um em seu reinado.

Sem opções deteve-se a deleitar a concubina fiel, cujo grande sonho era tornar-se rainha, mas seu reinado era curto - ainda que belo - e fugaz, poucas horas, um ápice e então a solidão do calor e do azul.

Adentrava às vezes piedoso e clemente, outras vezes apressado e sem dó, de quando em vez atrasava-se e o atraso permanecia durante alguns dias subsequentes até que conselheiros fieis imploravam-lhe para que voltasse a sua rotina original. O clima era sempre o mesmo: tensão e expectativa, súditos aguardavam para ver-lhe interpretar - dia após dia - o mesmo papel sedento do amante solitário buscando noutros véus os
prazeres esquecidos.

Rompia sempre o mesmo tecido com paixão indiferente, culminando em um ápice vermelho e borrado, as mesmas manchas nos lençóis, o mesmo gemer curioso e então... O nada. A rotina.

A mesmice do diário.

Contudo, naquele momento, Sol e solitário tomava posse da Madrugada, tendo suas fantasias lunares, nas quais reinava a mesma figura prateada e poderosa de todas as noites.

Uma Lua que, enfeitada por Nyx, desejava o mesmo - eclipse.

Uma Erva entre Clareiras e Prados

Floresceu das cinzas, miúda e feia. Suja por fuligem secular de uma floresta inóspita queimada durante anos. Anos nos quais as árvores forma violentadas, alteradas e submetidas ao bel-prazer de opressores varonis.

Desde o principiar, geminava calada, apenas a aguardar um oportuno momento, assistira de perto o massacre das toras ao seu redor, cortadas, queimadas, sufocadas e presas... Presas ao solo infértil que já não lhes rendia alimento, atadas a agricultores e zangões descuidados – sempre na mesma aliança unilateral.

Vez por outra pássaros belos e exóticos surgiam, germinavam e sumiam tão logo quanto vieram, tão breves como apareceram, tomando dois caminhos tão distintos e tão similares entre si: a adubagem do solo – no ato de decomposição – ou o prato principal de um jantar qualquer...
Em meio à tamanha brutalidade, aconchegou-se sob a terra como se esta fosse um cobertor úmido e cálido, a mãe divina, esperando uma chuva, um aguaceiro qualquer, um evento cataclísmico, um aviso, um sinal...

Chegou pelo fogo – seu aviso singelo – em uma luta por igualdade, um documento negado e renegado pelos fazendeiros revolucionários. Como uma semente de cerrado – cujo fogo é necessário para brotar – seu processo germinativo começou.

Crescia lentamente, ultrapassando camadas de solo com lentidão demasiada, quebrando as barreiras de seu invólucro, rumando vagarosamente até o ar atmosférico.

Outro incêndio, mais incentivos, mais clamor, as explosões rompiam dogmas e paradigmas, lançando a liberdade aquelas plantas submissas.

Entalhadas em sua rubra madeira as figuras tomavam formas, curvas, roupas e - principalmente – voz. Uma voz que gritava aos ventos o seu implorar emudecido em farfalhares e sussurros.

Aquele levante abafado fez desabar as poucas camadas que lhe impediam de chegar à superfície, eram tão poucas e tão espessas... Quase ninguém pôde atentar ao despontar daquela nova Era, os que viram cobriram a flor com tábuas pobres e imagens alegóricas – distorcidas e asquerosas.

Retardaram seu crescimento e por pouco não a mataram. Uma única fresta de luz a manteve viva, somente o necessário para uma sub existência enclausurada.

As tábuas – os tabus que cegavam – foram removidas, assim como as imagens que a deturparam, a flor transformou-se em mulher, viva, bela. Um arcanjo esbelto entregou-lhe uma bandeira, transformada em maçã. Sua pele alva; seu cabelo ruivo, longo e sedoso. Não usava roupas, para quê?

Olhou para o fruto em sua mão e para a floresta viva a sua volta. Inaugurava linhagens. Sabia de sua maldição. Mordeu a fruta vermelha – tão rubra quanto seus cabelos. Fardo pesado para uma mulher. Era Ela: a Eva entre Clarice e Prado.

Liberté


A madeira ao seu redor era ao mesmo tempo abertura e cela. Uma prisão de luxo da qual se via, mas nada podia se fazer além de fantasiar. Naquela prisão ostentada, sua mente divagou, caiu em sonho. Vagou entre imagens difusas e contorcidas, até parar em uma campina rupestre.

Um mar de trigo – ao menos parecia-lhe trigo – estendia-se a sua frente, imensa, vasta, a se perder no campo visual... O vento batia incessante e inerte, contínuo e incansável. Seu corpo não pesava – será que tinha asas?

A claridade era sobrenatural. Branco no branco, cegava, queimava, derretia... Tombou no tapete pardo da plantação indistinta. Havia voado alto demais. O manto azulado cobria-lhe com uma sensação amedrontadora e calma, mansa e opressora. O infinito corria ao seu redor, o peso da tinta parecia-lhe inferior – fora liberta?

Levantou-se. Trêmula. Arfante. Tentou usar as pernas, mas os músculos estavam relaxados demais e, com um ruído oco, tombou ao chão. A escuridão englobou-a, foi ordenado e obedecido – faça-se luz.

Pequena, aninhada em seu corpanzil reduzido e doce, abraçou as que falharam em se mover com suas mãozinhas angelicais. Sua visão era difusa, mas podia discernir os tons que indicavam o alvorecer, dos tempos, do dia, da vida...

Naquele despontar a luz era branda e mansa, narravam-se méritos épicos, fábulas gloriosas, buscava-se as explicações, mas estas se escondiam entre ninfas e florestas inexploradas. Os deuses reinavam em seus montes e castelos. No berço natural chorou nas primeiras horas de vida.

Uma criança indefesa. Pequena e bela aninhada em um cobertor ralo de feno. Não havia quem a defendesse, quem a tomasse no colo e a aninhasse em leite materno. Era somente um bebê. Não havia quem semeasse aquela singela semente e a transformasse em flor...

A bola de fogo rumou ao ponto no qual a sombra não se projetava no solo. Hebe a abraçou, como juventude e com amor, um véu fora posto em sua face – ou seria um manto denso que cobria a abóbada?

Dificultosamente pôs-se de pé,obrigando as pernas pequenas a moverem-se. Não podia ver com seus olhos tapados, mas enxergava com os ouvidos astutos e aguçados em todas as direções.

Em seus primeiros passos desengonçados caiu, diversas vezes, tropeçando em toras pesadas e grossas e ouvindo reclamações mal educadas daqueles que mecanicamente carregavam a madeira, arrastando-a sobre o chão pedregoso.

Moinhos giravam distantes, com altos impostos cobrados a cada giro; as badaladas metálicas dos sinos ecoavam vazias e o povo morria aos montes enquanto as fogueiras gritavam por clemência.

Fizeram-na de aprendiz, mas estava debilitada. Fizeram-na de serva e suas mãos criaram grossos calos. Fizeram-na de artesã, mas como reproduzir o que nunca se viu? Fizeram-na de mendiga e no relento encontrou abrigo.

Em um imundo beco, homens encontraram-na, surgindo ao seu redor como vaga-lumes que cercam a vela, eles clamavam seu nome, levantavam e ofereciam-lhe uma bandeira. Seriam homens de princípios? Ou o princípio dos homens?

Um a ajudou a se erguer, outro deu-lhe alimento e vestes, outro teve pena da venda negra que cobria-lhe a face e tirou-a, mostrando a seus olhos desacostumados a luz o que há tanto seus ouvidos já viam. Em um espelho quebrado observou-se mulher, jovem e bela.

Quanto tempo se passara nas trevas?
Em meio a velas e livros contaram-lhe seus planos sorrateiros, lhe forneceram a linha de frente, como prêmio: terras, reinos, riquezas, amores... Não sentiu-se tentada pela oferta do inimaginável, atraia-se pelo que jamais teve: a chance de guerrear.

O sangue inundou as ruas em uma batalha sangrenta, parecia interminável o números de corpos que viu tombar, ambos os lados lutavam pelo mesmo nome, mas estavam enfeitiçados pelo não saber, torpes por teorias vagas e pouco estudadas. Por diversas vezes foi ferida, maltratada, maculada. Seu nome foi difamado nos becos e docas, dito pelas bocas embriagadas.

Ofereceu a mão a vários, mas olharam para os calos e feridas e rejeitaram-na como leprosa. Suas vestes foram rasgadas e foi determinada em perfídia uma punição para aquela que jamais fez algo além de auxiliar...

Acordou assustada, em sua prisão artística, e procurou com olhar congelado os homens de princípios que estenderam-lhe a mão, mas não havia homens de princípios, nunca houvera. Foram apenas homens do princípio, arcaicos e cegos sob as trevas de sua própria ignorância. Os músculos reclamaram da pose secular. Lembrou-se do campo de trigos e da cera escaldante.

Tinha sido a pomba ou o ramo preso?

Despertador

Paciência. Dai-me. Por favor. Nem que seja apenas o suficiente para nas próximas horas implorar igual presente.

Paciência para nutrir minh'alma, paciência para suportar, paciência para acalmar meu amâgo, paciência para conseguir caminhar até o fim dessa estrada de pedras pontiagudas e gritar em alto e bom som:

- Consegui!

Impacientemente, tamborilo os dedos nas têmporas, marcando esse vagar interminável de segundos.

- Só mais um pouco, só mais um pouco - grita-me o relógio afixado na parede e eu pergunto:

- Pouco quanto? Pouco quanto?

As palavras são a fuga e elas saem, desordenadas, desatentas e despreparadas, apenas por sair. Naquele movimento inconscientemente coordenado os dedos escrevem enquanto o pulsar bombea-lhes sangue. O som da música abafada é o único sossego, a folha, a única companheira e amiga fiel, na qual deposito meus pensamentos soltos, pouco importa.

Vão lê-los? Não sei.

Vão entendê-los? Quem sabe.

Vão admirá-los? Talvez.

Contudo, o vagar é infindo, a espera eterna e na atemporalidade me perco. Os sentidos confundem-se, o sonho é complexo e difuso, algo sobre um relógio e sua voz rouca e pouco usada. E sobre um alguém que falta, um alguém que são vários, um faltar que abrange sentidos sem sentido. Acordo com uma estranha sensação:

- Estou presa em um sonho?

O fim

Como era belo! O alvorecer daquele dia, as cores que jamais tive tempo de atentar. As mesmas cores que se misturavam. Tão solenes, tão humildes... Nem sequer parecia que a luz alcançava aquele lugar com mesma mansidão na qual iluminava as melhores plantações primaveris.

Observando aquela bela paisagem, sentei-me sobre a pedra fria, detive-me a narrar – apenas em minha mente – o que me trouxe àquele penoso lócus.

Narrá-lo-ei. Sem grandes brilhantismos ou fogosos devaneios. Apenas hei de executar, mais uma vez, o papel de contador de histórias.

O alvorecer do dia que precedeu este não foi minimamente belo como o primeiro, ou talvez eu apenas não o tenha dedicado tamanha admiração quanto a aquele que – com demasiada atenção – assisti e memorizei e glorifiquei.

Começava mais um monótono dia, mais um componente dos anos nos quais o arrastar das chinelas velhas, o frio de um cobertor ralo e o pedir foram meus únicos mestres e companheiros – além, é claro, daquela que ocasionalmente devorava minhas entranhas.

Um cão sarnento. Já não sabia o que diziam os símbolos grifados nas chapas metálicas; as pernas guiavam-me com um incentivo – muito pequeno – de meus entorpecidos neurônios. Com o sol, despontava o desafio nosso de cada dia: sobreviver.

Os sentidos eram vagos e difusos... Talvez nem na morte encontrasse repostas. Afinal, já não sentia.

Filas e mais filas preencheram as horas torpes, marcadas tão e somente pelo fluxo de ruas e avenidas que se enchiam e se esvaziavam com e como o tiquetaquear apressado dos relógios de pulso.

Ouvi negações, dadas pelos que podiam, fui tratado como um inseto. Mas a Fome cegava o ego, transformava-me em bicho. Apenas mais um animal.

O tempo se arrastou... E naquele deserto povoado não cheguei a encontrar abrigo, ou mão que a mim fosse estendida. Migalhas eram fornecidas às formigas, às baratas, aos cachorros, aos ladrões, mas não sobrava um único farelo que me alimentasse.

Caí. Miserável e miseravelmente doente. Cansado. Morto.

Não houve melancolia que se sucedeu, ou viúva histérica a beira de um caixão. Nem sequer houve caixão. A matéria inerte que fora meu corpo foi sepultada sem cerimônia, sem velório, sem lápide ou epitáfio.

Sentei-me na fria pedra e observei: Eis a cova de um indigente.

Lupa

Soava um ruído surdo e abafado da fina chuva caindo por cima das folhas que adubavam o solo por toda a floresta. Ela deu alguns passos, ouvindo o som sutil do esmagar de folhas sob seus pés. Farejando o ar. Aguçando os sentidos. O suspirar dos que jaziam adormecidos se fazia perfeitamente audível, assim como o piar das corujas e o cântico soturno do vento, tocando as árvores como se estas fossem as mais magníficas harpas, tendo suas folhas por cordas. O crepitar de uma fogueira, flamejando um fogo feroz e fugaz, criava o fundo musical daquela orquestra arquitetada pela natureza.

Seu faro captou algo, muito além do cheiro de terra encharcada, muito além das presas longínquas e inalcançáveis, algo vindo de além do seu instinto, um pedido que a chamava assim como o encantador faz com as serpentes.

Levantou a cabeça, sentindo os vários aromas que se misturavam no ar penetrar-lhe as narinas. Não identificou o misterioso cheiro. Seu estômago implorou por comida. Deixou o odor enigmático e encantador esquecido, seu instinto gritava-lhe na mente:

“Alimente-se”

Aguçou a visão, melhorada à luz do luar, procurando... Espreitando... Esperando... O círculo prateado pendurava-se como um pingente nobre no tecido negro e estrelado sobre tudo e todos. Imponente e exalando poder sobre toda a paisagem.

Caminho com grande cautela e calma, usando de todos os seus sentidos para captar uma boa caça, uma carne que a alimentasse durante aquela noite. Sua fome deveria ser saciada; seus desejos, satisfeitos. Ao olhar ao seu redor avistou um cervo, animal belo e forte, distraído bebendo água num fino córrego regado pela chuva que perdurava durante dias.

Sacudiu-se, retirando o peso da água de seus pelos amarronzados.

O cervo levantou a cabeça a buscar nos arredores a origem daquele disfarçado barulho.

Ela agachou-se, montando tocaia, confundindo-se ao solo sob suas patas, e esperou.

A presa voltou-se novamente ao córrego, matando a sede que antes digeria suas entranhas.

Mal sabia ele que por detrás de um arbusto uma caçadora espreitava, tendo por instinto o mesmo intento.

A presa era grande, ela sabia. E também tinha o conhecimento de que, naquela noite, estava sozinha.

Sua natureza a mantinha preparada, precisava do alimento e não mediria esforços para obtê-lo. Ao ver sua caça deliciando-se com os goles da água pluvial, percebeu: sua oportunidade estava formada.

Saltou sobre o cervo com velocidade e graça, o animal não deteve o tempo necessário para reagir e defender-se, mesmo sabendo que seria abatido, tentou atacar a predadora com seus protuberantes chifres. Não obteve sucesso. A cabeça pendeu sem vida, o corpo caiu ao chão e o coração deu seu ultimo batimento sofrido, logo a carne servia de alimento para a vencedora faminta.

Não obstante ao assassinato que cometera em prol de sua sobrevivência, afastou-se dos restos de sua refeição e seguiu andando a margem do córrego, correnteza acima. O fino fio de água alargou-se, aumentava a sua espessura a cada passo.
Sentiu o cansaço tomando suas pernas, fazendo-as fraquejar. Precisava de descanso.

O vento passou por seu corpo molhado. Ela tremeu. Estava frio. Seus sentidos embaralhavam-se, estava tombando. Obrigou-se a continuar, mas nenhum de seus membros obedecia. Por fim, tombou cansada no chão, achara um lugar seguro. Por fim, adormeceu.

A luz clara indicou o inicio de um novo dia. O sol nascia com mansidão, rompendo a madrugada, cheio de poder. O céu vestiu-se de vermelho por alguns minutos e logo o cinza reassumiu os tons de toda aquela tela celestial.

Ela abriu os olhos, desperta após algumas horas, e analisou o local ao seu redor.
A chuva ainda não cessara e à luz fraca do dia a água correndo parecia um véu cinza de eterno pesar. Continuava deitada observando a fumaça limpa que saia do que fora uma fogueira recém apagada, respirando calmamente, sentindo um peso sobre seu corpo. A compressão de dois corpos quentes e pequenos juntos ao seu.

O cheiro deles era encantador, o canto da sereia, belo e intrigante, uma mistura de abandono, inocência, tristeza e solidão. Dois corpinhos doces que se enrolavam no pelo da predadora como se ela fosse sua salvação, aquela que os poderia proteger. Era um sentimento que invadia a mente dela, duas crianças, dois humanos, o símbolo da pureza e inocência. Aninhados no corpo dela, sem medo de sua aparência feroz e exausta.

Estavam abandonados, soube desde que os viu ninguém jamais os procuraria e se os buscassem ninguém jamais iria encontrá-los no meio daquela floresta esquecida pelos humanos. Algo dentro dela despertou. Poderia consegui-lhes alimento? Seria capaz de defender duas criaturas tão distintas de si que insistiam em não temê-la?

Um novo instinto surgiu nela, ao ver os dois filhotes tão tranquilos e pacíficos aninhados nos seus pelos de caçadora impiedosa, sentindo-se na mais plena segurança. Quis criá-los, cativá-los, tratá-los como filhotes de sua própria espécie, ensinando-lhes a caçar até que fossem suficientemente independentes para fazê-lo sozinhos.

Parou a observá-los durante longos instantes, decidia-se...
Desejava-os, mas não com a angústia que sentia ao desejar uma presa, queria-os próximos, queria-os bem. Levantou devagar torcendo para que não acordasse os pequenos seres. Uma a um, levou os dois para dentro da barraca acabada e próxima que avistou, ao menos era um abrigo contra a chuva. Arrastava-os temerosa pela fina segunda pele que os envolvia, tinha um cuidado maternal... Cobriu-os com algumas folhas secas e montou guarda ao redor da barraca que, apesar de estar caindo aos pedaços, servia de abrigo para aquelas criaturinhas frágeis.

Horas se passaram.

Ela ouviu um chamado, um uivo soando distante e agonizado, vindo da profunda e densa floresta.

Queria cuidar daqueles filhotes, mas a alcatéia a chamava. Ela já não estava mais sozinha.

Se fosse humana ficaria.

Se fosse humana continuaria ali, cuidando deles.

Se fosse humana jamais abandonaria aquelas criaturas angelicais.

O uivo soou novamente, como o sino que quebra o encanto, levando-a de volta a realidade.

Não era humana.

Um terceiro uivo ecoou, chamando-a com urgência.

Olhou de relance para os gêmeos adormecidos e desapareceu, confundindo-se aos tons cinzas da floresta.

Era uma loba, jamais seria uma mulher.

Soneto (a)temporal

Havia uma chuva fina a tocar a janela,
Um cair de águas lento e delicado,
Um pranto calmo e inconsolável
Que silenciosamente tombava ao chão.

Quieto, o fogo mal consumia a vela;
Sordido e puro, o ar continuava parado;
Não existia nada menos agradável
Além do pútreo suor da decomposição.

A gritaria congelava o ar
Dizendo ao tempo, com fervor:
- Não irás passar

O tempo impiedoso respondia
Com calma, sutileza e pudor:
- Já passei, esqueça-te da euforia...

A Cidade que Desafiou

Solenemente, os sinos antigos tocaram. O som ecoou na pequena vila remetendo ao principiar de um novo dia. O Astro apenas despontava no azul acinzentado manto dos dias nublados, erguendo-se lenta e preguiçosamente alvorecendo a luz de um novo tempo.

Como o acertado, as badaladas dançaram ao vento, três, um ciclo, assim como o acordado. Se tivesse forma e mente humanas sorriria ou até mesmo riria com seu triunfo. Estava na hora do tempo voltar a caminhar.

Era uma senhora paciente, arquitetara e esperara com calma... Chamaram-na de dispensável, de cruel e gélida. Acatou as acusações e afastou-se. Retirando o seu véu e distanciando-se do lugar...

Uma semana. Não sentiram sua falta ou sua presença e pareceram não se importar com sua ausência forçada.

Um mês. Sua falta foi sentida e comemorada, alegraram e regozijaram-se, festejaram sua partida com as mais belíssimas celebrações. Desfiles e festivais. Cantos e música. Felicidade e vida...

Um trimestre. Aqueles que dependiam dela para viver passaram a viver em miséria. Era uma bela adoração em homenagem a Prometeu, a mania interminável de seguir os antigos costumes... Pereciam as centenas, nasciam aos milhares, o tempo andava, mas as pestes eram repelidas.

Um ano. O negócio, que teoricamente jamais quebraria, faliu definitivamente, mas os insatisfeitos eram tão poucos que seus gritos foram abafados e ignorados pela multidão que os cercava. Pequenas e singelas moscas podres e pobres, arrastadas à miséria impiedosamente.

Um decênio. A velhice dominava as ruas e as taxas de natalidade acompanhavam as de mortalidade copiosamente. Dos murmúrios dos rejeitados surgiu um grito imortal amparado por uma maioria miserável. A máquina estatal ensurdeceu-se, vedando os olhos, não desejava enxergar o que estava no limiar do óbvio. O que era de interesse público eram apenas as taxas. Os números não mentiam.

Os anos passaram. O levante começou, sorrateiro e silencioso de princípio, mas logo audaz e ousado. Impiedoso e determinado, a revolta deveria ter rendido algo aos decompositores, mas essas agências tinham falido há tempos, era um negócio sem êxito naquela cidade.

O povo pediu o contrário daquilo que era costume pedir. Misericórdia a uma senhora fatal, expurgada do ambiente com tochas, agora aclamada pelo mesmo fogo. O trato foi refeito. A data remarcada. Despedidas alegres e aliviadas, comemorações contidas.

O novo deveria substituir o velho. As gerações deveriam fechar o ciclo para que o novo começasse.

A terceira badalada surtiu efeito.

Uma ventania apagou a cidade.

A vila que desafiara todas as leis naturais sumia sem registros. Não passava de um conto.

A cidade que ousou desafiar a Morte.

A Falta do Nada

Quando há a quem culpar, o todo se torna mais aprazível, mas não te acovardes ao ponto de ousares levantar a mão em direção a mim e aos meus. Ache a quem depositar a tua culpa. Então, pergunto-te interessada, quem culparemos nessa rodada?

Ora, porque não o copo, sugiro-te, isso! Culpemos o copo que, enquanto cheio, foi o habitat e a morada de teu veneno...

Não, não! Não o copo, contradigo em seguida, culpemos a mão! É! Esta mesma. Que te afaga e te açoita na mesma rapidez na qual sucumbes...

Tratemos de fazer melhor e elaboremos uma terceira opção, arrebato enquanto pereces, afinal três indica a totalidade. O todo que não tens. A parte que te falta e sempre faltará. És somente um vazio a caminhar por entre os restos mortais de teus antepassados e a massacrá-los e a humilhá-los, arruinando em segundo o império que os séculos demoraram-se a erguer e solidificar. Sede uma poeira cósmica largada ao léu de teus próprios pesares. És o resto do nada, o vácuo de tua negritude interna.

Heis de culpar o veneno. Ora que ironia! Não foste tu a levá-lo afobadamente ao teu sistema digestório? Não foste tu que o apreciaste com perfídia, mesmo conhecendo a natureza vil dele?

Queres culpar algo? Argo-te por fim, culpa a ti mesmo e a tua ausência de ser, culpa tua inanidade e insensatez, culpa as moléculas orgânicas que formam aos teus tecidos necrosados, os órgãos que pulsam e movem esta tua existência medíocre e degradante. Esta involução subalterna que és, se não consegues achar o culpado por teus agouros, culpa então a ti mesmo e a essa tua falta de discernimento para não te sentires culpado.

Escrito, composto e descrito

Não me interessa o público senil que não entende minhas vãs e torpes metáforas, este teatro está em ruínas, as críticas são parte de um roteiro mal escrito e falho. A minha frente encontra-se o livro da vida, com um destino fraco e fustigado para meu personagem, não ouso chegar ler suas últimas linhas, o desfecho não deve ser decifrado sem o ápice, mas percebo com ironia que tudo já está elaborado - seja lá o que o tudo é.

Minh'alma é para os poucos que conseguem ler os signos agourentos que a traduzem, a influência dos astros que de insignificância ajuda o servem, é uma paz armada, um sussurro gritado, uma felicidade tristonha e sem razão de ser, um propósito ainda não planejado que jamais terá um final pré-escrito.

Acho a borracha que é capaz de apagar aquele texto obscuro, passo-a entre as páginas frágeis e borradas, manchadas por uma tinta negra e feita de minhas lágrimas e cinzas de meu passado destruído e vago; por mais que esfregasse as páginas até ter força suficiente para rasgá-las, elas se reconstruíam, mostrando runas cada vez mais devastadoras, condenando-me ao que jamais foi meu, a um destino breve, selado, fechado e resguardado apenas Aquele ser que tudo pode - seja lá quem fosse este.

A borracha que eu utilizava não conseguia mudar o traçado irregular de cada página, o livro era antigo e indecifrável, uma tradução metafórica do desconhecido e próprio âmago meu, pertencia a outros tempos, outras eras, mesmo assim tentava se ajustar ao presente, falhando miseravelmente.

À medida que suas páginas eram amassadas ele retaliava, e continuava inerte, confundia-se ao indefeso, ao ler seu trágico final arranquei-lhe as páginas e senti um aperto no peito.

Dirigi a mão ao esterno sentindo o bater fraco de meu coração. Ele ainda pulsava? Sempre que me lembrava do órgão o sentia frio como uma rocha impenetrável, mas agora ele pulsava, a olhar para o livro. A cortina fechava-se, o véu negro cobria-me, o livro fechava-se sozinho devorando as páginas amareladas que o preenchiam.

Heis sua última faceta incrível. As pálpebras pesaram-me, o escuro e o vazio se aporedou de minh'alma - aquela que debilmente tentei louvar - e a carregou para o nada, o além que jamais desejei conhecer...

Pseudomentalidade - a um louco

Vi a loucura estampada em teu olhar perdido, desfocado como um vidro embaçado pelo teu frio interior. Teus olhos tão perdidos quanto teus atos, ou a tua falta de senso esquecida sob os teus maus costumes. Perdeste o senso em cada som sorrateiro de teu respirar abismal.

Caíste no abismo que cavaste em teus atos mal encenados, desejaste me levar junto a ti, porém, perdoe a minha falta de tato ao dizer que afundarás só, se possível ainda te incentivarei a pular na negritude abissal de teus próprios medos e lá perecerás solitário, junto apenas aos vermes que consumem a tua carne.

Não me digas que foste um desavisado, um inocente, um vitimado. És tão desavisado quanto as placas em teu caminho, as mesmas que te imploraram para não seguir em frente, és tão inocente quanto o demônio que libertaste nos teus goles apressados, és tão vitimado quanto o algoz que torturou as tuas entranhas antes de corromper-te.

Teu sorriso é falso; tua boca, cheia de cicatrizes de tuas palavras impérfidas; teus olhos mascaram tua loucura, mas a tua loucura transparece em cada gesto que interpretas.

És o pior ator das peças de comédia, um artista de grande ego e com tanto talento quanto as traças que roem os teus bizarros livros.

Ousas, apenas ousas, sonhar que és mais, mas são apenas teus devaneios torpes, és tão insignificante quanto os ratos de teu calabouço imaginário.

Morres pouco a pouco neste teu ridículo modo de viver como uma bactéria, proliferando-se e contaminando tudo o que tua podre mão toca.

Último Espasmo de Vingança

Cada passo tinha sido pensando e repensado. Ela caminhou, ouviu o tilintar dos sinos surdamente abafado. Seus sapatos batiam na madeira negra do chão encoando no recinto com a frequência de um pingo incômodo. Seus olhos de gelo varreram minunciosamente o salão. Viu os bêbados seduzindo as mulheres vis, mais interessadas nas moedas ainda não gastas em álcool do que em quaisquer serviços para obtê-las; viu o pianista passando os dedos pelas teclas, em uma música animada; viu as garçonetes tetando se desviar das mãos alheias que queriam acariciar-lhes o mais íntimo de seu ser; viu o barman que servia bebidas, tão alcoolizado quanto seus clientes...

Mesas sujas, garrafas vazias, copos quebrados, ases perdidos nas mangas alheias. O saloon era a imagem da luxúria e soberba, ela respirou fundo e sorriu. Doce aroma do pecado e da perdição. Tão tentador...

O toque do salto no tablado era despercebido em meio a música e aos altos murmúrios. O cenário era perfeito.

Demorou a encontrá-lo, mas não custou a aproximar-se, nem a ser facilmente confundida com uma das mulheres da vida que ofereciam-se, esperando vender o prazer de seus corpos usados por alguns trocados.

Ele não a reconheceu, só desejava o calor de um corpo feminino, naquela noite, estava disposto a pagar por medíocres atributos ofertados e encontrava-se torpe demais, não reconheceria a própria mãe, se esta se insinuasse.

Ela sorriu o seu sorriso mais cínico e sentou-se ao lado.

Ele cheirou-a como gim, embebedou-se com seu perfume doce e forte, tragou o ar que a rodeava e deliciou-se em cada gole sufocante daquela figura poderosa. Nem ao menos lembrou-se...

Não conversaram. Não gastaria sua melodiosa voz com um bêbado. Não houve troca de olhares, ou romance. Jamais houve amor, então: para quê gastar tempo com bobagens sentimentalistas?

Um beijo. Puramente carnal da parte dele. Puramente enojado da parte dela. Um ínfima parte do plano. O amargor que precede o adorável. A dor que precede o prazer. A parte desgostosa que precedia o Gran Finale.

Ele providenciou um quarto, querendo saciar sua carne. Ela o seguiu, ansiando saciar sua sede...

Era uma localidade desprezível, uma cama de colchão ralo e cobertor puído; tudo revirado, a rotatividade do quarto era deveras impressionante...

Em um beijo sem paixão ou calor, sem romance ou amor, sem carinho, afagos ou aromas agradáveis. Um beijo frio, encenado, arquitetado e final... Ele lutou para retirar-lhe as roupas. Ela cansou de ser seu brinquedo, desistiu de ser sua boneca, largou a fria máscara de sua felicidade vazia...

Nem ao menos gritou, no ápice de sua luxúria viu-se esvair, viu-se soltar e ser solto, e, tarde demais, lembrou-se daqueles olhos...

O sangue manchou os lençóis, escorreu pelo tecido das vestes, secou sorrateiro enquanto a vítima estendia-se debilmente no decadente recinto, por cima das traças que roíam os panos do leito.

Não escutou-se mais passos, a música parou e pairou no ar tocando no silêncio uma fúnebre composição de Chopin. Um grito agudo cortou o ar.

A boca escancarada, a língua presa a um anel dourado, as calças abertas, os olhos sem brilho...

A viúva sorriu, metros longe do lugar. Largou-se ao tilintar da aliança tocando o chão, o som que a despertara de seu sonho, no qual viu o último suspiro, o espasmo final, a música suave de sua doce vingança.

Vi, És

Sou a prostituta, que se benze aos olhos do puro padre e frequenta os cultos nos dias sacros.

Sou a infiel, tão presa a princípios que traição não consta em meu vocabulário.

Sou a louca, aquela que em sua insensatez disseminou a razão.

Sou a egoísta, que se colocou na via crucis para livrar-te dos teus demônios.

Sou a pervertida, que corrompeu o amante e o levou ao caminho certo.

Sou a falsa, que jamais soube, nem jamais se importou em mentir.

Sou a dramática, que dos palcos tem medo e de toda peça foge.

Som a fria, que chora, ri, apoia, vive e ama as tuas emoções.

Sou a princesa, sem coroa, sem reino, sem súditos, presa num castelo sem paredes que ainda luta para obter próprio sucesso.

Sou a grossa, tão rude que por vezes me tomam por infantil e doce.

Sou a imatura, de pouca idade, a quem vieste pedir conselhos.

Sou a rebelde, que evita a guerrilha em busca de paz.

Sou a ignorante, a perversa, a vagabunda, a deturpada, a sem fé ou razão. Tanto sou que o que é me remete ao não ser mais e me pergunto quando deixarei de sê-lo – o espelho que olhas – e serei apenas eu. Um âmago íntimo, preso e calejado que há tanto não sabe mais o que é.