Meu peito já não dói, sangra
um líquido amarelo e doente
fruto do plasma d'alma demente
e das cinzas das torpes lembranças.
E, enquanto cinzeiro, essa ferida chora,
queimando por dentro em águas
o pouco das memórias sem mágoas
o muito dos devaneios de auroras.
Então fico a vê-lo putrefar
cansado de sofrer, morto por sangrar
o sangue que de amarelo vira tinta
petra, forte, viscosa...
Na qual a pena molho
da qual a negritude me apavora.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Mono
E os minutos não passam
E as horas se estendem
E os dias se arrastam, em um tiquetaquear infindo
E, inquietantes, as noites perecem
E a espera continua
Lenta... Passiva... Eterna...
Sem jamais findar
Sem jamais fluir
E as horas se estendem
E os dias se arrastam, em um tiquetaquear infindo
E, inquietantes, as noites perecem
E a espera continua
Lenta... Passiva... Eterna...
Sem jamais findar
Sem jamais fluir
sábado, 7 de janeiro de 2012
Real ilusão
Sim, este momento é surrupiado, roubado de uma das muitas vidas que tive, tirado da que eu desejaria ter, era aquela calma complacente, que preenchia cada ponto vazio do meu íntimo como uma luz em meio a escuridão, queria que como a luz trouxesse semelhante paz e quando eu menos pensava lá estava ela. Pura. Amável. Enxugando meu rosto como o anjo da guarda, me prendendo em seus braços para que eu nada fizesse, nem nada temesse, era tão bom... Eu a queria o tempo todo, mas ela me prometeu algo melhor, me ajudou com vestes - tão lindas e puras - e disse que não voltaria, mas que alguém viria ao meu encontro. Era Afrodite.
O tempo passava, mesmo que parecesse parado com o céu claro e com a cheiro da chuva por vir, parecia que estava no paraíso e isso eu já achava mesmo sem tê-lo visto... A grama crescida, aquele ar bucólico, o vento fresco brincando de acariciar meu rosto, tão real, tão celeste. Quando ele chegou então, me dei por morta, não poderia ter visto ser mais fantástico em vida, seu jeito de me reter nos braços, a maneira com a qual falava, era a perfeição - ainda que possuísse seus defeitos - soaria tolo dizer que foi a primeira vista, um presente de Vênus, mas soaria ainda mais ridículo dizer que não foi nada e que nada aconteceu. Quando me dei por mim só existiamos nós, o resto do mundo era somente resto, ali estava o que de fato importava...
Tanto resplandecia que fiquei cega, tanto era fogo que fui queimada, tanto era denso de seus rumores e significados que me perdi, tanto era irreal que, pouco a pouco, do sonho fui despertando, quando me dei por mim estava só, a revirar lençóis, procurando a imagem do que jamais foi meu...
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