Sim, este momento é surrupiado, roubado de uma das muitas vidas que tive, tirado da que eu desejaria ter, era aquela calma complacente, que preenchia cada ponto vazio do meu íntimo como uma luz em meio a escuridão, queria que como a luz trouxesse semelhante paz e quando eu menos pensava lá estava ela. Pura. Amável. Enxugando meu rosto como o anjo da guarda, me prendendo em seus braços para que eu nada fizesse, nem nada temesse, era tão bom... Eu a queria o tempo todo, mas ela me prometeu algo melhor, me ajudou com vestes - tão lindas e puras - e disse que não voltaria, mas que alguém viria ao meu encontro. Era Afrodite.
O tempo passava, mesmo que parecesse parado com o céu claro e com a cheiro da chuva por vir, parecia que estava no paraíso e isso eu já achava mesmo sem tê-lo visto... A grama crescida, aquele ar bucólico, o vento fresco brincando de acariciar meu rosto, tão real, tão celeste. Quando ele chegou então, me dei por morta, não poderia ter visto ser mais fantástico em vida, seu jeito de me reter nos braços, a maneira com a qual falava, era a perfeição - ainda que possuísse seus defeitos - soaria tolo dizer que foi a primeira vista, um presente de Vênus, mas soaria ainda mais ridículo dizer que não foi nada e que nada aconteceu. Quando me dei por mim só existiamos nós, o resto do mundo era somente resto, ali estava o que de fato importava...
Tanto resplandecia que fiquei cega, tanto era fogo que fui queimada, tanto era denso de seus rumores e significados que me perdi, tanto era irreal que, pouco a pouco, do sonho fui despertando, quando me dei por mim estava só, a revirar lençóis, procurando a imagem do que jamais foi meu...
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