sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Porcelanato

Dizer que foi um cristal é um clichê e uma inverdade, uma vez que jamais houve brilho para poder-se chamar de cristal. Parecia uma porcelana, antiga, frágil, contudo, supostamente duradoura. Um vaso opaco que carecia de brilho, porém que ainda detinha beleza dos adornos mais belos de toda a face, de todo ser. O era assim, opaco e sem vida, mas o era belo, estonteante e exótico, com sua pureza branco-leite e seu jeito de preencher os espaços.

Centralizado de modo a ser sempre o ponto para qual se seguem todos os olhares, em cima de uma mesinha bamba, meio velha e meio gasta tanto quanto a peça que em cima fingia ser rainha. Numa sala ampla e sem cor, destacava-se com sua mistura de tudo, emanando algo além das frequências luminosas, era mais, somente mais.

O vento gingava ao seu redor, como um sacerdote a contemplar a deusa, sem tocá-la, sem se aproximar demais, somente a orbitar como um planeta num sistema complexo e inabitável de forças e vontades. Jogava perigosamente ao redor da mesinha, um jogo perigoso, que levava a um sutil balançar interpretado por uma batida oca. Não obstante aos avisos, o vento parecia admirar-se com a beleza e encantava-lhe o som propagado daquele balanço irrestrito.

Tum. A porcelana tremeu, andando alguns dedos sobre a mesa, deslizando desengonçadamente sobre as farpas, quase deitando-se perigosamente.

Tum. O vento continuou, não se importava com aquele fraquejar, já o vira antes, e antes nada havia acontecido.

Tum. A deusa rolou pela mesa, de um lado a outro, do outro a um, parecendo estar sobre uma corda-bamba, sem saída, sem opções. Queria que o vento parasse, mas agora já era tarde...

Caiu. Girou. Quebrou. Espatifou-se no chão com cacos de porcelana antiga espalhados por todo o lugar, nada sobrara de sua antiga beleza, a não ser uma flor, a terra e a tranquilidade de não ter mais que se preocupar com o vento.

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