terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Pena

Ela discorre com sua forma lânguida, apressada a soltar o que não se deve nem sequer pensar, soa sórdida, ainda que angelical, soa pura ainda que visceral, surrupia os sentidos como um narcótico, entorpece-os como um veneno a sabotar todas as sinapses nervosas. É calmante, porém sabe ser cruel, expositiva, sedutora e caluniosa. É mais e menos, como se pudesse ser paradoxal e antitética ao mesmo tempo, uma amante a apenas caminhar sob seu solo, marcando a cada passo uma nova grafia, uma nova acentuação metódica e metonímica - até mesmo metalinguística - pulsante por cada mofo pregado ao chão.

Mofa nas gavetas, nas entranhas mais sombrias, parentes obscuras do próprio ato de perecer, putrefando como tantos outros órgãos, morrendo a cada bater abafado por caixas de ossos. Termina por morrer como seus interlocutores, na medida que seus passos são somente ecos indistintos numa mansão barulhenta, e dá asco ao virar somente adubo.

Asco é pouco nome para a sensação que se segue a esta morte, é um turbilhão que aflora no esôfago, porém que fervilha ainda mais no estômago, surrupia da mente aquilo que o ser em vida era para ter surrupiado - suspiros, só que estes são somente ecos guturais daqueles que deveriam ter se pronunciado. Também morrem e se enterram - se enterram todos afinal - entregando-se aos operários fúnebres e lastimáveis que a temível vida reserva em seus derradeiros momentos. Contudo, aquela que se cita anteriormente deixa um suor putrefado, uma confusão de enzimas e outros componentes biológicos, todavia, é de pouco interesse o que ela deixa, de mais interesse é o vazio que ela não preenche. Morre. A Ideia. A Imaginação. O Sonho. Sem saber que ali, morreu também uma parte de um todo maior, agora perdido - a criação.

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