sábado, 3 de dezembro de 2011

Preto e branco

Circunscritos em seu próprio âmago, circundavam a si em uma ação reflexiva e paciente, um ao outro, o outro a um. Eram duas metades do mesmo todo, amparadas apenas pelo existir, mas o que era de fato existir, senão ter batimentos e alguma brecha para a atuação de um sistema nervoso, ou ser somente uma ilusão, baseada na filosofia de Descartes, na qual podemos ser deuses de nosso próprio mundo, movidos e munidos apenas de impulsos elétricos passados por uma consciência inoperante...

Aqueles dois seres existiam, na síndrome dualística e psicótica de sempre ser dois e um ao mesmo tempo, agonizavam em conjunto, mesmo que por vezes devessem ser antagônicos, ou rivais, não havia rivalidade naquele sentido profundo e inimaginável, somente uma sintonia além da vida e da morte, enraizada no mais íntimo daqueles seres, uma conexão de natureza exotérica e louca racionalidade. Paradoxal, embora seja, em qualquer íntimo calejado, um tanto óbvio de se presumir tal afirmativa.

Desta forma lucidamente delirante, pairavam no tempo-espaço em seu interminável rondar, presos em suas correntes e daquelas que não se submetem ao decompor dos tempos. Eram estruturas únicas e unidas, no universo, para sempre - até quando o sempre o fosse eterno.

Em preto e branco, branco e preto, e toda a dialética de cores fracionadas aos montes, continuavam em sua balança relativística, a se equilibrar eternamente, acionando uma espécie de desfibrilador que já não agia no coração - por mais que este merecesse alguns ampéres para ressuscitar de sua alva pedra. Estavam presentes em todos os locais, singelos em seu ímpar e cansado caminhar, deveriam dormir por algum beco, pendurados em alguma parede analisando-se por todo o sempre enquanto o mundo não enxergava seu sentido de mutualidade e cooperação. Quem sabe noutras eras, noutros tempos? Esperariam os próximos séculos.

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