terça-feira, 29 de novembro de 2011

Castelos de areia

Acreditamos ter construído um castelo de pedra, mas no final, não passava de poeira.

Os dias contados não me servem à memória, sei que foram mais de duzentos e menos que seiscentos, mas também não importa. O tempo não infere na exatidão e intensidade de certos sentimentos, estes são atemporais e se mostram imutáveis em suas essências.

Eu era menina, sentada na praia a construir castelos, mas quase todos desmoronavam antes mesmo de retirar-lhes o molde. Fazia pouco que tinha vindo parar num local muito maior e com muito mais gente do que o costumeiro. Via os diversos castelos erguidos, mas não conseguia entrar em nenhum... Por isso, pus-me a erguer um só meu. Só que este cedia antes mesmo do alvorecer... Foi quando chegaste junto a mim.

Em princípio, parecias ser balança com a fórmula exata do equilíbrio, sentaste ao meu lado e juntas nos pusemos a misturar areia e água em busca do ponto ideal.

O tempo foi passando e pacientemente fomos erguendo. Sala por sala. Talvez até Grão por grão. Pusemos fosso e reforço em seus alicerces e quando, quando uma parte desmoronava, uma de nós tratava em reerguer. E, enquanto a maré estava calma, tudo estava bem...

Intercalávamos turnos de vigília e, quase todos os dias, tínhamos de reconstruir a muralha, reforçar a base, compor novos cômodos. Pena que quanto maior nossa obra, mais difícil era mantê-la em pé.

Contrário ao que desejávamos - ou ao menos ao que eu desejava - a maré vinha subindo e subia tão devagar que não pressentimos o perigo, não vimos a umidade a penetrar em nossas torres e a provocar rachaduras.

Certo dia, enquanto ocupávamos de nossos afazeres diários, tropeçaste na muralha e derrubaste alguma parte dela. Não havia sido muito, mas era o suficiente para que a água passasse e fizesse tudo desmoronar...

O que de resto sucedeu, não lembro com exatidão, me pediste para consertar a fresta de teu tropeço e eu, por um motivo qualquer, não atendi o teu pedido em tempo hábil. No próximo segundo a água lavou nosso castelo e jogou-o ao chão.

Sei que hoje talvez me culpes pela queda de nosso castelo, sei que no primeiro momento também te culpei, mas hoje percebo - com apenas um pouco mais de maturidade - que não há uma culpada e não reerguemos o castelo, não porque não quisemos, mas por termos crescido de menos e não é mais apropriado construir castelos na areia.

Hoje, já não me olhas. Talvez por não querer lembrar, talvez porque ainda precises superar a demolição daqueles dias, ou talvez por outro motivo qualquer. Contudo, eu só posso esperar e espero para que quando nossos filhos e netos (ou filhas e netas) estiverem na tenra idade de construir castelos, sentemo-nos e ensinemos a eles. Para que não tropecem na muralha, ou se esqueçam de reerguê-la. E quem sabe talvez, quando esse dia chegar, não tenhamos amadurecido o suficiente para sentar junto às crianças e passar a reerguer nosso próprio castelo.

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