Solenemente, os sinos antigos tocaram. O som ecoou na pequena vila remetendo ao principiar de um novo dia. O Astro apenas despontava no azul acinzentado manto dos dias nublados, erguendo-se lenta e preguiçosamente alvorecendo a luz de um novo tempo.
Como o acertado, as badaladas dançaram ao vento, três, um ciclo, assim como o acordado. Se tivesse forma e mente humanas sorriria ou até mesmo riria com seu triunfo. Estava na hora do tempo voltar a caminhar.
Era uma senhora paciente, arquitetara e esperara com calma... Chamaram-na de dispensável, de cruel e gélida. Acatou as acusações e afastou-se. Retirando o seu véu e distanciando-se do lugar...
Uma semana. Não sentiram sua falta ou sua presença e pareceram não se importar com sua ausência forçada.
Um mês. Sua falta foi sentida e comemorada, alegraram e regozijaram-se, festejaram sua partida com as mais belíssimas celebrações. Desfiles e festivais. Cantos e música. Felicidade e vida...
Um trimestre. Aqueles que dependiam dela para viver passaram a viver em miséria. Era uma bela adoração em homenagem a Prometeu, a mania interminável de seguir os antigos costumes... Pereciam as centenas, nasciam aos milhares, o tempo andava, mas as pestes eram repelidas.
Um ano. O negócio, que teoricamente jamais quebraria, faliu definitivamente, mas os insatisfeitos eram tão poucos que seus gritos foram abafados e ignorados pela multidão que os cercava. Pequenas e singelas moscas podres e pobres, arrastadas à miséria impiedosamente.
Um decênio. A velhice dominava as ruas e as taxas de natalidade acompanhavam as de mortalidade copiosamente. Dos murmúrios dos rejeitados surgiu um grito imortal amparado por uma maioria miserável. A máquina estatal ensurdeceu-se, vedando os olhos, não desejava enxergar o que estava no limiar do óbvio. O que era de interesse público eram apenas as taxas. Os números não mentiam.
Os anos passaram. O levante começou, sorrateiro e silencioso de princípio, mas logo audaz e ousado. Impiedoso e determinado, a revolta deveria ter rendido algo aos decompositores, mas essas agências tinham falido há tempos, era um negócio sem êxito naquela cidade.
O povo pediu o contrário daquilo que era costume pedir. Misericórdia a uma senhora fatal, expurgada do ambiente com tochas, agora aclamada pelo mesmo fogo. O trato foi refeito. A data remarcada. Despedidas alegres e aliviadas, comemorações contidas.
O novo deveria substituir o velho. As gerações deveriam fechar o ciclo para que o novo começasse.
A terceira badalada surtiu efeito.
Uma ventania apagou a cidade.
A vila que desafiara todas as leis naturais sumia sem registros. Não passava de um conto.
A cidade que ousou desafiar a Morte.
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