domingo, 27 de novembro de 2011

Uma Erva entre Clareiras e Prados

Floresceu das cinzas, miúda e feia. Suja por fuligem secular de uma floresta inóspita queimada durante anos. Anos nos quais as árvores forma violentadas, alteradas e submetidas ao bel-prazer de opressores varonis.

Desde o principiar, geminava calada, apenas a aguardar um oportuno momento, assistira de perto o massacre das toras ao seu redor, cortadas, queimadas, sufocadas e presas... Presas ao solo infértil que já não lhes rendia alimento, atadas a agricultores e zangões descuidados – sempre na mesma aliança unilateral.

Vez por outra pássaros belos e exóticos surgiam, germinavam e sumiam tão logo quanto vieram, tão breves como apareceram, tomando dois caminhos tão distintos e tão similares entre si: a adubagem do solo – no ato de decomposição – ou o prato principal de um jantar qualquer...
Em meio à tamanha brutalidade, aconchegou-se sob a terra como se esta fosse um cobertor úmido e cálido, a mãe divina, esperando uma chuva, um aguaceiro qualquer, um evento cataclísmico, um aviso, um sinal...

Chegou pelo fogo – seu aviso singelo – em uma luta por igualdade, um documento negado e renegado pelos fazendeiros revolucionários. Como uma semente de cerrado – cujo fogo é necessário para brotar – seu processo germinativo começou.

Crescia lentamente, ultrapassando camadas de solo com lentidão demasiada, quebrando as barreiras de seu invólucro, rumando vagarosamente até o ar atmosférico.

Outro incêndio, mais incentivos, mais clamor, as explosões rompiam dogmas e paradigmas, lançando a liberdade aquelas plantas submissas.

Entalhadas em sua rubra madeira as figuras tomavam formas, curvas, roupas e - principalmente – voz. Uma voz que gritava aos ventos o seu implorar emudecido em farfalhares e sussurros.

Aquele levante abafado fez desabar as poucas camadas que lhe impediam de chegar à superfície, eram tão poucas e tão espessas... Quase ninguém pôde atentar ao despontar daquela nova Era, os que viram cobriram a flor com tábuas pobres e imagens alegóricas – distorcidas e asquerosas.

Retardaram seu crescimento e por pouco não a mataram. Uma única fresta de luz a manteve viva, somente o necessário para uma sub existência enclausurada.

As tábuas – os tabus que cegavam – foram removidas, assim como as imagens que a deturparam, a flor transformou-se em mulher, viva, bela. Um arcanjo esbelto entregou-lhe uma bandeira, transformada em maçã. Sua pele alva; seu cabelo ruivo, longo e sedoso. Não usava roupas, para quê?

Olhou para o fruto em sua mão e para a floresta viva a sua volta. Inaugurava linhagens. Sabia de sua maldição. Mordeu a fruta vermelha – tão rubra quanto seus cabelos. Fardo pesado para uma mulher. Era Ela: a Eva entre Clarice e Prado.

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