domingo, 27 de novembro de 2011

Envelope em veneno

Querido,

Não te escrevo apenas sob o pretexto de narrar-lhe um pouco dos meus últimos dias, como também pela vontade inerente de poder falar-te, ainda que saiba que esta será uma via única, na qual o diálogo será mero monólogo de minha parte.

Acabei de voltar de nosso encontro, o dia estava - e ainda está - muito belo, o céu está do modo que gostas - um sol escondido em meio as nuvens brancas, aquele véu que cobre o dia - tão bonito! Senti sua falta ao caminhar por nosso parque predileto, vestida com o negro que também apreciavas em minha pele branca, vários homens contemplaram-me e até chegaram a tentar me cortejar, mas não os quero...
A família parece estranhamente mais feliz com nossa separação, de princípio acreditei que fosse excesso da parte deles, depois percebi que de fato encontram-se aliviados, quase posso escutar tua voz sussurrando em meu ouvido em meio tom exasperado: "Prevísivel"; mas o que posso fazer? Continuam a ser meus pais e ao término ainda se preocupam com meu bem estar.
A mão me é frouxa e inimiga, fui visitada pelo Nobre senhor, mas não o desejo como a ti desejei - de corpo e alma, de sangue e pulso - ele pediu o desposar, o que é tardio e de mal gosto, uma vez que todos sabem que foste meu único e eterno esposo...
Oh! Como queria que tudo não passasse de mais lúgebre devaneio, que cada silêncio não fosse incômodo e perpétuo, que cada leito não me lembrasse o leito cálido de teus braços... Infelizmente, não é um devaneio.
Esta carta é a última, perdoe-me por desistir tão cedo, tentei com ímpeto continuar, seguir adiante, mas adiante sempre me foi um conceito relativo e já perdi as forças para prolongar a caminhada. Desculpe se pareço-te fraca, apenas não sei persistir. Necessito de todo meu ser unir-me novamente a ti e é por estes motivos que te escrevo. Já não estou me despedindo, venho dizer-te que irei a teu encontro.

Com afeto,
Juliet.

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