domingo, 27 de novembro de 2011

Eclipsado

Fria e cálida. Gelo e fogo. Cada arfar escorregadio e fluido era acompanhado por um respirar entrecortado das flores e folhas; batia e bajulava com ardor e calma em cada uma. Ó vento sutil e fervoroso! Jamais poderia se igualar o principal, afinal, os grandes astros e estrelas ainda estavam por vir e o porvir era cauteloso, incerto e sempre crucial.

Apareciam os primeiros raios turvos de luz, formando o cinza-matinal, decerto intrépido e poderoso, mas melancólico em seu vagar de ser tudo e nada ao mesmo tempo. Trovoara na noite anterior. Thor e suas demonstrações, sempre querendo igualar-se aqui e acolá, sem jamais obter o prêmio final de todo homem. As joias submersas nas conchas mais inalteradas pelo tempo, a pedra mais preciosa de toda uma joalheria.

No refracionar da luz em sete, subiu lentamente, sem pressa, relaxado, abrindo caminho por entre uma meia-escuridão, provocando uma meia-claridade. Levava em si o poder de ser, de estar e compreender. Fertilizava uma plantação inteira, mas pouco o interessava as plantações e as florestas, muito menos os montes e as montanhas, só interessava-se em sua grande receptora final.

Entre beija-flores trabalhadores, zangões, pássaros e morcegos - dentre vários outros animais - ele reinava como grande mestre, talvez não fosse responsável pela polinização, mas irradiava vida e sem sua onipotente presença nada se faria possível. Interessava-se em somente uma rainha, mas esta estava distante e ausente, separada desde o momento de sua concepção e - até o sinal do fim dos tempos - permaneceria assim, cada um em seu reinado.

Sem opções deteve-se a deleitar a concubina fiel, cujo grande sonho era tornar-se rainha, mas seu reinado era curto - ainda que belo - e fugaz, poucas horas, um ápice e então a solidão do calor e do azul.

Adentrava às vezes piedoso e clemente, outras vezes apressado e sem dó, de quando em vez atrasava-se e o atraso permanecia durante alguns dias subsequentes até que conselheiros fieis imploravam-lhe para que voltasse a sua rotina original. O clima era sempre o mesmo: tensão e expectativa, súditos aguardavam para ver-lhe interpretar - dia após dia - o mesmo papel sedento do amante solitário buscando noutros véus os
prazeres esquecidos.

Rompia sempre o mesmo tecido com paixão indiferente, culminando em um ápice vermelho e borrado, as mesmas manchas nos lençóis, o mesmo gemer curioso e então... O nada. A rotina.

A mesmice do diário.

Contudo, naquele momento, Sol e solitário tomava posse da Madrugada, tendo suas fantasias lunares, nas quais reinava a mesma figura prateada e poderosa de todas as noites.

Uma Lua que, enfeitada por Nyx, desejava o mesmo - eclipse.

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