Do sutil tocar de sapatilhas, fez-se a música. E o corpo dela era harpa, a ressoar a melodia em movimentos leves. Suavidade angelical encarnada em ossos, tendões, músculos e órgãos - a mover-se.
O vento era maestro, envolvendo a plateia vazia em febril levitação, brincava de brindar ao silêncio e o Silêncio era letra, cantada pelo coro de luz e mansidão. Interpretava o tilintar de seus sentimentos puros deixando a música reger sua arte, ascendendo em inimaginável beleza e descendo em inimaginável suavidade... Era a musa e a poetisa.
E no palco ela era estrela.
A seda fina e alva era cobertor e tecia-se ao seu redor, protegendo-a como uma mãe ao filho, adornando as curvas como neblina a encobrir a beleza das montanhas. Esvoaçando a envolver a pele o tecido dançava com ela, seguia seus passos, acompanhava seus gestos, mimetizava sua magia. A lua sorria-lhe com encanto, adorando o anjo a bailar no telhado, entretendo-se com sua habilidade naquela arte de se expressar sem palavras ou entonações... Ela encantava simplesmente por andar.
E na noite ela era só.
Não era teatro, o palco de sua singela apresentação, o assoalho não era composto de grossas toras perfeitamente lisas, nem envernizado, nem tinha nada de luxuoso ou perene. Apenas cimento batido. Não contava com detalhes arquitetônicos encantando os olhos, saciando o sabor de ver o que a mente desejava. Contava tão e somente com uma estrutura de madeira e concreto, localizada nas cinzas e no pó, nos contornos, na beirada, de onde todos queriam sair e nenhum desejava chegar.
E na pobreza ela era alento.
A natureza morta era cenário, pintada com poeira, suor e fumaça envolvendo a construção corroída pelo ácido dos tempos, canto onde as idades e anos eram iguais em sua diferença. Não existia inocência, apenas fome; não existia infância, apenas sede.
E em destaque ela era pueril.
E do grito fez-se chama, mas antes já a havia, e da vela surgiu o fogo, consumindo tudo apressadamente.
E na madeira ele era sedento.
O crepitar lhe serviu de batida, ritmando seus passos marcados, dando-lhes norte a seguir em seu cirandar. Os gritos e o alvoroço cantarolavam acordes na frieza altiva da noite.
E no calor ela era beleza.
O vermelho devorou as toras, partindo-as sem misericórdia, rompeu as vigas sem piedade e ascendeu, sem a suavidade do levitar. Andar por andar, a alimentar-se do concreto, nas explosões e nos tombares. Digerindo as moradas. Nele lançaram água, mas no primeiro contato o líquido dissipou-se em fumaça e de nada adiantou, ele continuava a subir em força e brutalidade.
E na calada ele era desperto.
As sirenes anunciaram o ápice, indicaram o auge de seu compor melódico e valsado. As cordas da harpa que era seu corpo vibravam febris e desesperadas, mas não havia desespero em sua face; contraditória a todo o seu cenário a ruir ela estava em paz.
E no barulho ela era calma.
O fogo chegou ao telhado e sem hesitar invadiu o palco, como se exigisse para si o papel da ninfa que bailava, não havia clemência em sua atuação, não era ator, acostumado a interpretar papéis. Das folhas apenas conhecia o gosto e as cinzas dos dejetos. A beleza lhe era indiferente.
E no queimar ele era cego.
Primeiro, rasgou-lhe a seda, despiu-lhe o corpo, enquanto ela bailava indiferente a sua brutalidade - talvez em protesto, talvez em inocência - com uma agora vestes de chama, a dançar. Depois a beleza fez-se exótica e eroticamente ele usou de suas línguas-labaredas para lamber-lhe o corpo - languidamente. Membro a membro devorou-a como miserável, satisfez-se em sua pele como esfomeado, tomou para si a sua carne - e dela se banqueteou, apalpou-lhe coxas e seios e sentiu verdadeiro prazer ao vê-la desfalecer em seu caloroso abraço...
E nos escombros ela tornou-se cinzas.
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