domingo, 27 de novembro de 2011
Liberté
A madeira ao seu redor era ao mesmo tempo abertura e cela. Uma prisão de luxo da qual se via, mas nada podia se fazer além de fantasiar. Naquela prisão ostentada, sua mente divagou, caiu em sonho. Vagou entre imagens difusas e contorcidas, até parar em uma campina rupestre.
Um mar de trigo – ao menos parecia-lhe trigo – estendia-se a sua frente, imensa, vasta, a se perder no campo visual... O vento batia incessante e inerte, contínuo e incansável. Seu corpo não pesava – será que tinha asas?
A claridade era sobrenatural. Branco no branco, cegava, queimava, derretia... Tombou no tapete pardo da plantação indistinta. Havia voado alto demais. O manto azulado cobria-lhe com uma sensação amedrontadora e calma, mansa e opressora. O infinito corria ao seu redor, o peso da tinta parecia-lhe inferior – fora liberta?
Levantou-se. Trêmula. Arfante. Tentou usar as pernas, mas os músculos estavam relaxados demais e, com um ruído oco, tombou ao chão. A escuridão englobou-a, foi ordenado e obedecido – faça-se luz.
Pequena, aninhada em seu corpanzil reduzido e doce, abraçou as que falharam em se mover com suas mãozinhas angelicais. Sua visão era difusa, mas podia discernir os tons que indicavam o alvorecer, dos tempos, do dia, da vida...
Naquele despontar a luz era branda e mansa, narravam-se méritos épicos, fábulas gloriosas, buscava-se as explicações, mas estas se escondiam entre ninfas e florestas inexploradas. Os deuses reinavam em seus montes e castelos. No berço natural chorou nas primeiras horas de vida.
Uma criança indefesa. Pequena e bela aninhada em um cobertor ralo de feno. Não havia quem a defendesse, quem a tomasse no colo e a aninhasse em leite materno. Era somente um bebê. Não havia quem semeasse aquela singela semente e a transformasse em flor...
A bola de fogo rumou ao ponto no qual a sombra não se projetava no solo. Hebe a abraçou, como juventude e com amor, um véu fora posto em sua face – ou seria um manto denso que cobria a abóbada?
Dificultosamente pôs-se de pé,obrigando as pernas pequenas a moverem-se. Não podia ver com seus olhos tapados, mas enxergava com os ouvidos astutos e aguçados em todas as direções.
Em seus primeiros passos desengonçados caiu, diversas vezes, tropeçando em toras pesadas e grossas e ouvindo reclamações mal educadas daqueles que mecanicamente carregavam a madeira, arrastando-a sobre o chão pedregoso.
Moinhos giravam distantes, com altos impostos cobrados a cada giro; as badaladas metálicas dos sinos ecoavam vazias e o povo morria aos montes enquanto as fogueiras gritavam por clemência.
Fizeram-na de aprendiz, mas estava debilitada. Fizeram-na de serva e suas mãos criaram grossos calos. Fizeram-na de artesã, mas como reproduzir o que nunca se viu? Fizeram-na de mendiga e no relento encontrou abrigo.
Em um imundo beco, homens encontraram-na, surgindo ao seu redor como vaga-lumes que cercam a vela, eles clamavam seu nome, levantavam e ofereciam-lhe uma bandeira. Seriam homens de princípios? Ou o princípio dos homens?
Um a ajudou a se erguer, outro deu-lhe alimento e vestes, outro teve pena da venda negra que cobria-lhe a face e tirou-a, mostrando a seus olhos desacostumados a luz o que há tanto seus ouvidos já viam. Em um espelho quebrado observou-se mulher, jovem e bela.
Quanto tempo se passara nas trevas?
Em meio a velas e livros contaram-lhe seus planos sorrateiros, lhe forneceram a linha de frente, como prêmio: terras, reinos, riquezas, amores... Não sentiu-se tentada pela oferta do inimaginável, atraia-se pelo que jamais teve: a chance de guerrear.
O sangue inundou as ruas em uma batalha sangrenta, parecia interminável o números de corpos que viu tombar, ambos os lados lutavam pelo mesmo nome, mas estavam enfeitiçados pelo não saber, torpes por teorias vagas e pouco estudadas. Por diversas vezes foi ferida, maltratada, maculada. Seu nome foi difamado nos becos e docas, dito pelas bocas embriagadas.
Ofereceu a mão a vários, mas olharam para os calos e feridas e rejeitaram-na como leprosa. Suas vestes foram rasgadas e foi determinada em perfídia uma punição para aquela que jamais fez algo além de auxiliar...
Acordou assustada, em sua prisão artística, e procurou com olhar congelado os homens de princípios que estenderam-lhe a mão, mas não havia homens de princípios, nunca houvera. Foram apenas homens do princípio, arcaicos e cegos sob as trevas de sua própria ignorância. Os músculos reclamaram da pose secular. Lembrou-se do campo de trigos e da cera escaldante.
Tinha sido a pomba ou o ramo preso?
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