Soava um ruído surdo e abafado da fina chuva caindo por cima das folhas que adubavam o solo por toda a floresta. Ela deu alguns passos, ouvindo o som sutil do esmagar de folhas sob seus pés. Farejando o ar. Aguçando os sentidos. O suspirar dos que jaziam adormecidos se fazia perfeitamente audível, assim como o piar das corujas e o cântico soturno do vento, tocando as árvores como se estas fossem as mais magníficas harpas, tendo suas folhas por cordas. O crepitar de uma fogueira, flamejando um fogo feroz e fugaz, criava o fundo musical daquela orquestra arquitetada pela natureza.
Seu faro captou algo, muito além do cheiro de terra encharcada, muito além das presas longínquas e inalcançáveis, algo vindo de além do seu instinto, um pedido que a chamava assim como o encantador faz com as serpentes.
Levantou a cabeça, sentindo os vários aromas que se misturavam no ar penetrar-lhe as narinas. Não identificou o misterioso cheiro. Seu estômago implorou por comida. Deixou o odor enigmático e encantador esquecido, seu instinto gritava-lhe na mente:
“Alimente-se”
Aguçou a visão, melhorada à luz do luar, procurando... Espreitando... Esperando... O círculo prateado pendurava-se como um pingente nobre no tecido negro e estrelado sobre tudo e todos. Imponente e exalando poder sobre toda a paisagem.
Caminho com grande cautela e calma, usando de todos os seus sentidos para captar uma boa caça, uma carne que a alimentasse durante aquela noite. Sua fome deveria ser saciada; seus desejos, satisfeitos. Ao olhar ao seu redor avistou um cervo, animal belo e forte, distraído bebendo água num fino córrego regado pela chuva que perdurava durante dias.
Sacudiu-se, retirando o peso da água de seus pelos amarronzados.
O cervo levantou a cabeça a buscar nos arredores a origem daquele disfarçado barulho.
Ela agachou-se, montando tocaia, confundindo-se ao solo sob suas patas, e esperou.
A presa voltou-se novamente ao córrego, matando a sede que antes digeria suas entranhas.
Mal sabia ele que por detrás de um arbusto uma caçadora espreitava, tendo por instinto o mesmo intento.
A presa era grande, ela sabia. E também tinha o conhecimento de que, naquela noite, estava sozinha.
Sua natureza a mantinha preparada, precisava do alimento e não mediria esforços para obtê-lo. Ao ver sua caça deliciando-se com os goles da água pluvial, percebeu: sua oportunidade estava formada.
Saltou sobre o cervo com velocidade e graça, o animal não deteve o tempo necessário para reagir e defender-se, mesmo sabendo que seria abatido, tentou atacar a predadora com seus protuberantes chifres. Não obteve sucesso. A cabeça pendeu sem vida, o corpo caiu ao chão e o coração deu seu ultimo batimento sofrido, logo a carne servia de alimento para a vencedora faminta.
Não obstante ao assassinato que cometera em prol de sua sobrevivência, afastou-se dos restos de sua refeição e seguiu andando a margem do córrego, correnteza acima. O fino fio de água alargou-se, aumentava a sua espessura a cada passo.
Sentiu o cansaço tomando suas pernas, fazendo-as fraquejar. Precisava de descanso.
O vento passou por seu corpo molhado. Ela tremeu. Estava frio. Seus sentidos embaralhavam-se, estava tombando. Obrigou-se a continuar, mas nenhum de seus membros obedecia. Por fim, tombou cansada no chão, achara um lugar seguro. Por fim, adormeceu.
A luz clara indicou o inicio de um novo dia. O sol nascia com mansidão, rompendo a madrugada, cheio de poder. O céu vestiu-se de vermelho por alguns minutos e logo o cinza reassumiu os tons de toda aquela tela celestial.
Ela abriu os olhos, desperta após algumas horas, e analisou o local ao seu redor.
A chuva ainda não cessara e à luz fraca do dia a água correndo parecia um véu cinza de eterno pesar. Continuava deitada observando a fumaça limpa que saia do que fora uma fogueira recém apagada, respirando calmamente, sentindo um peso sobre seu corpo. A compressão de dois corpos quentes e pequenos juntos ao seu.
O cheiro deles era encantador, o canto da sereia, belo e intrigante, uma mistura de abandono, inocência, tristeza e solidão. Dois corpinhos doces que se enrolavam no pelo da predadora como se ela fosse sua salvação, aquela que os poderia proteger. Era um sentimento que invadia a mente dela, duas crianças, dois humanos, o símbolo da pureza e inocência. Aninhados no corpo dela, sem medo de sua aparência feroz e exausta.
Estavam abandonados, soube desde que os viu ninguém jamais os procuraria e se os buscassem ninguém jamais iria encontrá-los no meio daquela floresta esquecida pelos humanos. Algo dentro dela despertou. Poderia consegui-lhes alimento? Seria capaz de defender duas criaturas tão distintas de si que insistiam em não temê-la?
Um novo instinto surgiu nela, ao ver os dois filhotes tão tranquilos e pacíficos aninhados nos seus pelos de caçadora impiedosa, sentindo-se na mais plena segurança. Quis criá-los, cativá-los, tratá-los como filhotes de sua própria espécie, ensinando-lhes a caçar até que fossem suficientemente independentes para fazê-lo sozinhos.
Parou a observá-los durante longos instantes, decidia-se...
Desejava-os, mas não com a angústia que sentia ao desejar uma presa, queria-os próximos, queria-os bem. Levantou devagar torcendo para que não acordasse os pequenos seres. Uma a um, levou os dois para dentro da barraca acabada e próxima que avistou, ao menos era um abrigo contra a chuva. Arrastava-os temerosa pela fina segunda pele que os envolvia, tinha um cuidado maternal... Cobriu-os com algumas folhas secas e montou guarda ao redor da barraca que, apesar de estar caindo aos pedaços, servia de abrigo para aquelas criaturinhas frágeis.
Horas se passaram.
Ela ouviu um chamado, um uivo soando distante e agonizado, vindo da profunda e densa floresta.
Queria cuidar daqueles filhotes, mas a alcatéia a chamava. Ela já não estava mais sozinha.
Se fosse humana ficaria.
Se fosse humana continuaria ali, cuidando deles.
Se fosse humana jamais abandonaria aquelas criaturas angelicais.
O uivo soou novamente, como o sino que quebra o encanto, levando-a de volta a realidade.
Não era humana.
Um terceiro uivo ecoou, chamando-a com urgência.
Olhou de relance para os gêmeos adormecidos e desapareceu, confundindo-se aos tons cinzas da floresta.
Era uma loba, jamais seria uma mulher.
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