domingo, 27 de novembro de 2011

Jazigo em paz

Do vento tudo o que sinto é o afagar gentil do ar a minha volta. Mecânico. Gerado. Artificial. A lamber a face como amante sedento das súplicas - súplicas estas que minhas pregas vocais fartam-se de ecoar. Em suma e solitária cela, aparenta-me que os destinos foram selados, com a cera silvestre e libertina cuspida por lábios inertes, e que as carícias são somente como o vento a acariciar-me a face - mecânicas e artificiais.

A chuva comprime a mente, o corpo e o peito dói, habitado por uma triste incerteza de que tudo vai dar certo no final, pulsa debilmente, gesticula desesperado - como podem não vê-lo? Como podem não ver-me? Os anos são tão breves quanto o encontrar das pálpebras ou a rotação terrestre, mas aparenta ser sempre o mesmo status, um enorme divisor de águas. Que seja então.

A dor continua pulsante, viva, natural. Sei que continuará até que tudo isto se apague, sei que é tolice desistir, mas que provação é esta que nem ao menos escapatória permite? Onde está a lanterna dos afogados? O farol do cais? A luz do fim do túnel? Ainda estou tão longe ao ponto de não enxergá-la, ou nem trilhei o necessário para poder admirar seu sinal de esperança? Maldita Pandora! A trancafiar essa centelha inócua num vaso, amarga luz de um vaga-lume...

Todo o corpo implora, o mar que abandona-me os olhos - analogamente a todo vaga-lume - deixa um rastro agonizante, marcado pelo ardor de minha retina - ou o que me arde é aquilo que a opera? - as pernas fraquejam e, mesmo que haja outros braços e pernas para me segurar, está me soando preferível cair - retumbar no solo infértil em busca de algum retiro milagroso... Nessa dança de horrores, o órgão que pulsa protegido por um cercado de ossos é o que mais agoniza meu ser, mesmo assim, continua em sua árdua tarefa - bater.

Que agonia insuportável! A mão ergueu-se até aquele ponto amargo e as unhas rasgaram o peito com ferocidade animalesca, por debaixo do esterno, afinal era um ponto sem ossos a proteger aquele pulso vivo e incessante. Continuou cortando e dilacerando a carne - cada fio e fibra muscular - até aprisionar aquela frequencia em um apertar firme. A dor pareceu diminuir, mas não chegou ao fim. Com um ruído eletrizante aquele órgão estava em minha mão.

Com um último sacrifício, pus-me a descansar. Em minha mão jazia o sangue, a carne, a pele e aquele pedaço inútil de musculatura - com dois átrios e dois ventrículos - repousando, finalmente sem bater.

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