domingo, 27 de novembro de 2011

Último Espasmo de Vingança

Cada passo tinha sido pensando e repensado. Ela caminhou, ouviu o tilintar dos sinos surdamente abafado. Seus sapatos batiam na madeira negra do chão encoando no recinto com a frequência de um pingo incômodo. Seus olhos de gelo varreram minunciosamente o salão. Viu os bêbados seduzindo as mulheres vis, mais interessadas nas moedas ainda não gastas em álcool do que em quaisquer serviços para obtê-las; viu o pianista passando os dedos pelas teclas, em uma música animada; viu as garçonetes tetando se desviar das mãos alheias que queriam acariciar-lhes o mais íntimo de seu ser; viu o barman que servia bebidas, tão alcoolizado quanto seus clientes...

Mesas sujas, garrafas vazias, copos quebrados, ases perdidos nas mangas alheias. O saloon era a imagem da luxúria e soberba, ela respirou fundo e sorriu. Doce aroma do pecado e da perdição. Tão tentador...

O toque do salto no tablado era despercebido em meio a música e aos altos murmúrios. O cenário era perfeito.

Demorou a encontrá-lo, mas não custou a aproximar-se, nem a ser facilmente confundida com uma das mulheres da vida que ofereciam-se, esperando vender o prazer de seus corpos usados por alguns trocados.

Ele não a reconheceu, só desejava o calor de um corpo feminino, naquela noite, estava disposto a pagar por medíocres atributos ofertados e encontrava-se torpe demais, não reconheceria a própria mãe, se esta se insinuasse.

Ela sorriu o seu sorriso mais cínico e sentou-se ao lado.

Ele cheirou-a como gim, embebedou-se com seu perfume doce e forte, tragou o ar que a rodeava e deliciou-se em cada gole sufocante daquela figura poderosa. Nem ao menos lembrou-se...

Não conversaram. Não gastaria sua melodiosa voz com um bêbado. Não houve troca de olhares, ou romance. Jamais houve amor, então: para quê gastar tempo com bobagens sentimentalistas?

Um beijo. Puramente carnal da parte dele. Puramente enojado da parte dela. Um ínfima parte do plano. O amargor que precede o adorável. A dor que precede o prazer. A parte desgostosa que precedia o Gran Finale.

Ele providenciou um quarto, querendo saciar sua carne. Ela o seguiu, ansiando saciar sua sede...

Era uma localidade desprezível, uma cama de colchão ralo e cobertor puído; tudo revirado, a rotatividade do quarto era deveras impressionante...

Em um beijo sem paixão ou calor, sem romance ou amor, sem carinho, afagos ou aromas agradáveis. Um beijo frio, encenado, arquitetado e final... Ele lutou para retirar-lhe as roupas. Ela cansou de ser seu brinquedo, desistiu de ser sua boneca, largou a fria máscara de sua felicidade vazia...

Nem ao menos gritou, no ápice de sua luxúria viu-se esvair, viu-se soltar e ser solto, e, tarde demais, lembrou-se daqueles olhos...

O sangue manchou os lençóis, escorreu pelo tecido das vestes, secou sorrateiro enquanto a vítima estendia-se debilmente no decadente recinto, por cima das traças que roíam os panos do leito.

Não escutou-se mais passos, a música parou e pairou no ar tocando no silêncio uma fúnebre composição de Chopin. Um grito agudo cortou o ar.

A boca escancarada, a língua presa a um anel dourado, as calças abertas, os olhos sem brilho...

A viúva sorriu, metros longe do lugar. Largou-se ao tilintar da aliança tocando o chão, o som que a despertara de seu sonho, no qual viu o último suspiro, o espasmo final, a música suave de sua doce vingança.

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