domingo, 27 de novembro de 2011

Desesperadamente, bebo

Chorava e ao invés de enxugar-me as lágrimas, sorvendo-as com qualquer manto, ele me as guardava em uma conserva e me fazia bebê-las, pouco a pouco, sentindo os diversos gostos, juntos e separados - paradoxais e distintos por natureza.
Por vezes a bebida era doce, suave, sutil; por vezes tão sem gosto que se assemelhava a nada, como a rotina, como a monotonia. E por vezes, tantas e tantas, era insuportável tragá-la, apenas seu cheiro me enojava, apenas sua viscosidade dava-me asco, mesmo assim obrigava-me a beber-lhe e apreciar-lhe. Assim o fazia, dia após dia.
Ele era tão severo, perguntava-lhe o porquê de tanta provação?
E ele respondia: não é nada.
- Se nada não é, por que continuas?
- Porque devo.
- Deves? Deves? Deveria eu dizer que os obstáculos estão criando falhas em meu molde já falho? E que estas falhas só tendem a aumentar, porque este infame jogo continua?
- Devo.
- Então mate tua dívida, mate-me de uma vez, leve-me para o nada e de nada me faça valer! Já não posso suportar tanto suplício, já não posso viver em tamanha provação.
- Desiste - afirmou em pergunta.
A palavra pesa impressa na fronte. Seu peso é maior do que o viscoso líquido, ele me conhece - bem até demais - sabe que tal verbo é inexistente em meu vocabulário, sabe que a saída mais fácil é - para mim - a última das últimas opções.
- Dá-me o copo - exigi, por fim.

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