domingo, 27 de novembro de 2011

O fim

Como era belo! O alvorecer daquele dia, as cores que jamais tive tempo de atentar. As mesmas cores que se misturavam. Tão solenes, tão humildes... Nem sequer parecia que a luz alcançava aquele lugar com mesma mansidão na qual iluminava as melhores plantações primaveris.

Observando aquela bela paisagem, sentei-me sobre a pedra fria, detive-me a narrar – apenas em minha mente – o que me trouxe àquele penoso lócus.

Narrá-lo-ei. Sem grandes brilhantismos ou fogosos devaneios. Apenas hei de executar, mais uma vez, o papel de contador de histórias.

O alvorecer do dia que precedeu este não foi minimamente belo como o primeiro, ou talvez eu apenas não o tenha dedicado tamanha admiração quanto a aquele que – com demasiada atenção – assisti e memorizei e glorifiquei.

Começava mais um monótono dia, mais um componente dos anos nos quais o arrastar das chinelas velhas, o frio de um cobertor ralo e o pedir foram meus únicos mestres e companheiros – além, é claro, daquela que ocasionalmente devorava minhas entranhas.

Um cão sarnento. Já não sabia o que diziam os símbolos grifados nas chapas metálicas; as pernas guiavam-me com um incentivo – muito pequeno – de meus entorpecidos neurônios. Com o sol, despontava o desafio nosso de cada dia: sobreviver.

Os sentidos eram vagos e difusos... Talvez nem na morte encontrasse repostas. Afinal, já não sentia.

Filas e mais filas preencheram as horas torpes, marcadas tão e somente pelo fluxo de ruas e avenidas que se enchiam e se esvaziavam com e como o tiquetaquear apressado dos relógios de pulso.

Ouvi negações, dadas pelos que podiam, fui tratado como um inseto. Mas a Fome cegava o ego, transformava-me em bicho. Apenas mais um animal.

O tempo se arrastou... E naquele deserto povoado não cheguei a encontrar abrigo, ou mão que a mim fosse estendida. Migalhas eram fornecidas às formigas, às baratas, aos cachorros, aos ladrões, mas não sobrava um único farelo que me alimentasse.

Caí. Miserável e miseravelmente doente. Cansado. Morto.

Não houve melancolia que se sucedeu, ou viúva histérica a beira de um caixão. Nem sequer houve caixão. A matéria inerte que fora meu corpo foi sepultada sem cerimônia, sem velório, sem lápide ou epitáfio.

Sentei-me na fria pedra e observei: Eis a cova de um indigente.

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