domingo, 27 de novembro de 2011

Vi, És

Sou a prostituta, que se benze aos olhos do puro padre e frequenta os cultos nos dias sacros.

Sou a infiel, tão presa a princípios que traição não consta em meu vocabulário.

Sou a louca, aquela que em sua insensatez disseminou a razão.

Sou a egoísta, que se colocou na via crucis para livrar-te dos teus demônios.

Sou a pervertida, que corrompeu o amante e o levou ao caminho certo.

Sou a falsa, que jamais soube, nem jamais se importou em mentir.

Sou a dramática, que dos palcos tem medo e de toda peça foge.

Som a fria, que chora, ri, apoia, vive e ama as tuas emoções.

Sou a princesa, sem coroa, sem reino, sem súditos, presa num castelo sem paredes que ainda luta para obter próprio sucesso.

Sou a grossa, tão rude que por vezes me tomam por infantil e doce.

Sou a imatura, de pouca idade, a quem vieste pedir conselhos.

Sou a rebelde, que evita a guerrilha em busca de paz.

Sou a ignorante, a perversa, a vagabunda, a deturpada, a sem fé ou razão. Tanto sou que o que é me remete ao não ser mais e me pergunto quando deixarei de sê-lo – o espelho que olhas – e serei apenas eu. Um âmago íntimo, preso e calejado que há tanto não sabe mais o que é.

Nenhum comentário:

Postar um comentário