Não me interessa o público senil que não entende minhas vãs e torpes metáforas, este teatro está em ruínas, as críticas são parte de um roteiro mal escrito e falho. A minha frente encontra-se o livro da vida, com um destino fraco e fustigado para meu personagem, não ouso chegar ler suas últimas linhas, o desfecho não deve ser decifrado sem o ápice, mas percebo com ironia que tudo já está elaborado - seja lá o que o tudo é.
Minh'alma é para os poucos que conseguem ler os signos agourentos que a traduzem, a influência dos astros que de insignificância ajuda o servem, é uma paz armada, um sussurro gritado, uma felicidade tristonha e sem razão de ser, um propósito ainda não planejado que jamais terá um final pré-escrito.
Acho a borracha que é capaz de apagar aquele texto obscuro, passo-a entre as páginas frágeis e borradas, manchadas por uma tinta negra e feita de minhas lágrimas e cinzas de meu passado destruído e vago; por mais que esfregasse as páginas até ter força suficiente para rasgá-las, elas se reconstruíam, mostrando runas cada vez mais devastadoras, condenando-me ao que jamais foi meu, a um destino breve, selado, fechado e resguardado apenas Aquele ser que tudo pode - seja lá quem fosse este.
A borracha que eu utilizava não conseguia mudar o traçado irregular de cada página, o livro era antigo e indecifrável, uma tradução metafórica do desconhecido e próprio âmago meu, pertencia a outros tempos, outras eras, mesmo assim tentava se ajustar ao presente, falhando miseravelmente.
À medida que suas páginas eram amassadas ele retaliava, e continuava inerte, confundia-se ao indefeso, ao ler seu trágico final arranquei-lhe as páginas e senti um aperto no peito.
Dirigi a mão ao esterno sentindo o bater fraco de meu coração. Ele ainda pulsava? Sempre que me lembrava do órgão o sentia frio como uma rocha impenetrável, mas agora ele pulsava, a olhar para o livro. A cortina fechava-se, o véu negro cobria-me, o livro fechava-se sozinho devorando as páginas amareladas que o preenchiam.
Heis sua última faceta incrível. As pálpebras pesaram-me, o escuro e o vazio se aporedou de minh'alma - aquela que debilmente tentei louvar - e a carregou para o nada, o além que jamais desejei conhecer...
Nenhum comentário:
Postar um comentário